quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Presente amargo


Esses dias, enquanto devaneava sobre romance com o Fulano, levantei a teoria de Gikovate sobre o amor, que no momento era a que eu mais estava aceitando. Segundo o psicólogo, o amor é a necessidade que sentimos de reencontrar o conforto intrauterino que perdemos no momento do nascimento. Somos gerados dentro de um espaço confortável cercado de afeto e, nove meses depois, somos cuspidos sem explicação, tendo que encarar toda a frieza do mundo. Um mundo hostil, pré-programado pra nos ferir por natureza. Nasce dentro de nós o vazio de encarar essa frieza, e sobra nossa esperança de reencontrar em alguém aquele conforto. O conforto intrauterino pode ser nosso lugar ao sol, pois é um porto seguro que preenche nosso vazio. Naquele instante, eu estava convicto de que encontrara finalmente o preenchimento do meu vazio. Acabara de reencontrar o rapaz que anos antes tinha sonhado em reencontrar, como a realização de um sonho distante. A química era evidente e todos os sinais apontavam para um romance.

Afinal, quão raro no mundo gay é encontrar alguém capaz de preencher esse vazio? Alguém cujos passeios aconteciam naturalmente, caminhando por São Paulo, tirando fotos e conhecendo lugares novos. Kevin preenchia minha necessidade de ver o mundo. Com ele viajei para a baixada, a minha primeira viagem com um homem e sem a companhia de familiares. O menino virando homem. Eu sou um aventureiro por natureza, e uma das minhas maiores crises é não ter quem acompanhe meu ritmo. Gosto de explorar, de sair sem definir o objetivo de vez em quando, mas tenho grande problema com a solidão. Queria ser capaz de abraçá-la, mas ai vem aquele vazio.

Enfim, acho que a pessoa ideal para nós é a que preenche esse vazio. E às vezes buscamos tão desesperadamente por algo que nos salve dele, que confundimos manifestações de afeto simples com algo mais. Acho que foi isso que se sucedeu com Kevin. Eu engrandeci sua imagem baseando-se no grau de importância que achava que ele tinha por ele ter comigo uma história de tempos atrás. E olha que a pessoa era problemática, e eu, em minha necessidade de preencher o vazio apenas abracei todos os seus problemas e tentei me acostumar.

Claro que o resultado seria desastroso, como poderia se prever.

Acontece que a pessoa começou a me tratar mal quando eu disse que nos tornávamos amiguinhos de internet. Simplesmente desapareceu. E eu fui ficando cada vez mais nervoso com a situação. levantei na minha cabeça várias teorias: Está fazendo isso por que quer me afastar e poupar sofrimento de ambos? Eu cometi alguma falha? Seria ele mais problemático do que eu pensava? Teria achado outra pessoa? 

Passei longe.

Vale ressaltar que o que Kevin me passava desde que começamos nossa relação, que depois chamou de apenas um lance, era a de que não podíamos ficar juntos apenas por conta de um mal timming, devido sua viagem. E eu acreditei, culpei o destino e me achei um azarado. Mas eu estava disposto até a esperar seu retorno. Eu estava disposto a qualquer coisa pra que desse certo.

Quanto equívoco.

Marquei com ele para nos encontrarmos no fim de semana, onde tentaria entender por que ele vinha agindo daquela maneira. Não aceitaria novamente que terminasse com pendências. Se era pra acabar, seria olhando nos olhos. Mas quando tentei marcar, foi grosso, respondendo apenas "ok" a tudo que eu dizia. Quanta hipocrisia, tratar assim alguém a quem levou pra cama e chegou até a dizer que amava (eu sempre acho um equívoco usar a palavra amor em momentos precoces, e evito usá-la. Sendo assim nunca retribuí os amores ditos. Não era o timming).

Dois dias depois de completo silêncio, ele me mandou uma mensagem dizendo que esperava que eu estivesse bem. Aproveitei a deixa pra puxar assunto, e não me respondeu mais. Tentei ligar pra ele, mas estava desligado. Naquele momento conversar era a única forma de esclarecer tudo. Eu já tinha desencanado até de encontrar, pois as grosserias tinham passado dos limites. mas foi só puxar assunto e o coração acelerou. Ele era o um. Eu tinha que espremer até o fim.

Até o fim, que se deu na manhã seguinte.

Logo que acordei, encontrei sua mensagem dizendo que era bom não conversarmos via mensagem, por que eu viajava em minhas teorias e devaneios. Não tenho sangue de barata, e respondi à altura. Que bela maturidade, travar uma batalha de textos por um app de bate papo, onde palavras leves saem ásperas e o que quer que seja dito sai na entonação da interpretação alheia. Não poupei nada, disse tudo que estava engasgado e que queria dizer no sábado, quando o encontrasse pessoalmente. Disse, por fim, numa confissão, que não estava a fim de nada pesado, e que tinha deixado isso claro, apesar de eu não ter maturidade pra entender. E eu revidei, claro, dizendo que eu realmente tinha muito a aprender sobre o mundo gay, onde palavras de amor não significavam nada.
Então veio a abordagem clássica usada por quase todos:

"Queria ser seu amigo...."

"Desculpa, mas pra ser meu amigo, é preciso ter certos pré-requisitos. Por isso tenho tão poucos."

Respondi, e desejei-lhe uma boa viagem e que encontrasse a leveza que tanto procurava. Foi de coração, acredito eu. Me deletou do facebook em seguida, respeitando meu desejo de não manter a amizade (que nunca existiu), ficando com consciência tranquila, já que eu quem não queria. Tudo na vida de Kevin era feito por obrigação, nunca por sua própria vontade. Ao menos eu devo ter lhe proporcionado o gostinho de fazer algo por si e por suas próprias decisões. No final, admitiu que não me queria mais, ao invés de culpar a viagem. Foi homem, afinal. Posso dizer com convicção que não me arrependo de nada, apesar de ter querido um final diferente, menos amargo. O sabor da decepção continha amargo. Ainda assim, valeu cada momento.
sábado, 18 de janeiro de 2014

Passado agridoce


Eu deveria ter vergonha de entrar aqui depois de passado mais de um ano sem postagem. Devia mesmo. Mas não tenho. Tenho um caso de amor e ódio com esse blog, e acredito que um dia voltarei a me dedicar a ele como antes, ou ao menos lhe darei um final decente. 

No presente momento, acho que não sou capaz nem de um, nem de outro. Apenas entro aqui com esse gosto amargo do que poderia estar escrevendo. Nesses anos que passaram, postando ou não postando, tantas coisas aconteceram. Há tanto que eu queria dizer e postar, mas não consegui. E não adianta tentar retomar o passado. 

A ultima tentativa foi frustrante. Acho também que o presente é sempre mais emergente. O final de 2013 teve um sabor especial. Teve um gostinho de esperança de que eu finalmente encontraria a felicidade em um amor. Vivi histórias que, se fosse um leitor do meu blog, duvidaria que de fato aconteceram. Mas aconteceram, de uma forma tão intensa, que olhando para trás, sinto uma mistura de felicidade e amargura. Preciso compartilhar isso aqui pra não explodir. Ano de 2013 foi um ano ruim. Não aqueles anos que dizemos que poderia ser melhor, mas foi ruim MESMO. Daqueles que você não quer mais ouvir falar quando termina e sente que não progrediu um só passo pra frente. Só queria que acabasse o mais breve possível. Aconteceu que, algumas semanas antes do temeroso fim (como já disse aqui, fins de ano me deixam mais pra baixo do que o normal) eu estava em mais um fim de semana entediante, caçando naqueles sites de putaria, quando enviei uma mensagem a mais um rapaz que faria-me as perguntas de sempre e terminaria em dois cenários possíveis: sexo fácil ou enrolação da web. Porém, quando o rapaz respondeu, percebi que ele era familiar. Mas estava diferente. Quando me enviou seu facebook, concluí que as suspeitas estavam certas. O rapaz era esse que vocês conheceram nesse post:

 http://nossolugaraosol.blogspot.com.br/2010/03/obis-rumos-que-vida-toma.html?zx=4cd16ef61543593b

 Sim, Kevin estava de volta. Pra não me complicar, fingi que não o conhecia e passamos boa parte daquela noite trocando mensagens e conversando via Watsapp (é, agora tenho mais essa ferramenta malévola graças a um Android que adquiri). Conversamos com uma afinidade assustadora e ele disse que sentia me conhecer de algum lugar. Eu, por outro lado, jamais imaginei que o reencontraria. Marcamos de nos ver no dia seguinte, que seria domingo, na Paulista, onde poderiamos ver os enfeites de natal. 

 Nos encontramos e a recepção foi ótima. Fomos até um barzinho do frei Caneca, onde nos sentamos e começamos a tomar uma bebida. Ele se lembrou do encontro na "T" de anos atrás, tendo 99% de certeza que me conhecia. Eu tinha 100% de certeza. Depois de alguns minutos, finalmente nos beijamos e foi como beijar aquele gatoto que conheci em 2007, sem tirar nem por. Era tudo um sonho, a primeira OBI que eu tinha em meus braços. Me chamou para ir a sua casa e resisti um pouco. Não queria que fosse apenas um sexo rápido e terminasse. Mas acabei indo. E claro, transamos. Foi uma ótima noite, e continuamos conversando no decorrer da semana. Porém, ele me revelou que faria uma viagem no começo do ano, e ficaria alguns meses fora do país, sem previsão de retorno. Era um sonho que ele tinha desde dez anos atrás, e não me opus. Apenas disse pra curtirmos o tempo que tinhamos sem pensar no futuro. E foi o que fizemos, ou pelo menos o que me esforcei pra fazer. Fui almoçar em seu apartamento, dormimos juntos e passamos ótimos dias. 

Mas fui notando que ele era bem triste por dentro. Havia algo naquele rapaz que o perturbava muito, um peso maior do que podia suportar. 

Um dia antes do ano novo, viajamos pra casa da minha prima na praia e passamos um dia fantástico juntos. Foi algo simples, ficamos andando na praia, com os pés na areia, mas foi algo tão intenso, eu olhava pro mar no horizonte e pensava: Finalmente encontrei aquele que procurei a vida toda. Não importa essa viagem, eu o esperarei, e viveremos essa história. Nem Hayashi nem nenhuma outra amizade poderia me impedir agora. Era eu e aquele rapaz contra o mundo e quem mais quisesse nos impedir. Não o deixaria ir novamente, escapando pelos meus dedos como da outra vez. Fomos até um morro bem alto na praia, de onde podia-se ver toda a paisagem e a muralha no horizonte no entardecer. Senti que tudo era possível. Resolvemos voltar na mesma noite, passeando de carro pela praia de São Vicente, com direito a parada em um quiosque gay e depois pelas praias de Santos. Dormi na casa dele e fui embora de manhã. 

Não passamos o fim de ano juntos por que ele teve que levar a mãe para a praia com a irmã dele. mas posso dizer que essa foi a melhor época de virada da minha vida. No fim de semana seguinte, passeamos pelo Ibirapuera e fui á casa dele. de noite, me levou de volta até minha cidade com seu carro.

E foi ai que as coisas começaram a desandar. 

Essa foi a ultima vez que eu o vi. Percebi seu afastamento pelas mensagens, que pareciam mais de amigos do que de amantes. Era como se ele quisesse que eu percebesse que era hora de deixar ir, era hora de eu aceitar que ele viajaria. Chegou a me dizer que era bom que eu me preparasse para sermos somente amigos, pois a viagem estava mais próxima, e que tínhamos apenas um lance e nada mais. O sonho desmoronava, e por mais que eu corresse atrás, sentia-o partir. Brigamos quando eu disse que estávamos nos tornando amigos ao invés de algo mais, e ele se afastou ainda mais. 

Engoli todo meu orgulho e liguei pra conversarmos, mas só vieram respostas secas ao que eu dizia. Seria uma forma de me afastar por estar de partida, ou teria sido mais uma ilusão de minha parte? um passado desenterrado que trouxe consigo esperanças demais e me encheu de falsas expectativas? Afinal, se todos os que ficam comigo acabam partindo com o tempo, por que com ele seria diferente? 

O passado é definitivamente superestimado e é um vespeiro quando colocamos a mão. Trás de volta o que foi adormecido, o que foi esquecido, e o que deveria ficar lá, silencioso. Mas não me arrependo. valeu cada momento, e cada sentelha de esperança de que podia dar certo. Talvez não tenha sido dessa vez, ou talvez tenha sido um timming ruim pela segunda vez. Agora só o tempo dirá.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Porque diversão também é preciso


O próximo a surgir em minha vida foi um puto. Aconteceu no início de 2012. Como eu disse, existe um ciclo no qual me encerrei, e do qual não consigo sair. Me decepciono com os putos, procuro alguém pra me entregar pro amor, me decepciono e recorro aos putos. 

Seu nome era Michael, um puto do site de pegação que pouco frequento. Marquei com ele de nos encontrarmos em uma noite, porém fiquei receoso e tentei desmarcar, ligando para ele. 

 "Escuta, Rud. Sou um cara bem prático, curti seu perfil, mas se não quiser hoje, de boa." 

Acho que ouvir a voz dele me deixou mais confortável, e fui pro encontro, quase as 20:00 da noite de sábado. Quase nunca ia para encontros tarde da noite, por questão de segurança. 

Na república, marquei com ele na saída da estação, e depois de esperar um pouco, seu carro parou, e eu saltei para dentro. Quando olhei pro cara, que no site não expunha seu rosto, apesar de exibir um corpo gostoso, quase tive um treco. Era lindo, como um modelo. Durante nossa busca por um motel, fomos conversando, e o papo fluiu muito bem. Apesar de saber que só rolaria sexo, não seria Fast foda como no caso do Batista, e eu estava empolgado. Nos beijamos no carro, o que achei bem excitante, e ele colocou minha mão dentro de sua calça, onde pude brincar um pouco com o instrumento.

 Após quase duas horas, chegamos a zona oeste de sampa, em uma rua somente de motéis. Não sei ao certo que lugar era aquele. Entramos no quarto, e tivemos uma noite bem empolgante. 

Na saída do hotel, Michael, que tinha bebido um pouco, jogou a chave na minha mão, e pediu que eu dirigisse seu carro pela, evitando o risco dele ser parado e multado na estrada. Era um automático, o que facilitou meu trabalho. Guiei o carro até entrarmos na Castelo Branco, onde ele assumiu o controle. Nosso papo foi muito agradável e ele me deixou há uns quinze minutos de casa. Ele era realmente lindo, arrisco dizer que o mais bonito com quem estive. 

E, com minha insegurança falando mais alto, nunca mais tornei a ligar nem nos falamos.
sábado, 10 de novembro de 2012

Nem tudo está perdido... ainda


Depois do trauma da quase fast foda, conheci uma pessoa que realmente valeu a pena. Odisseu.

Esse rapaz, também conheci no site de relacionamento que costumo entrar, se revelou uma pessoa bacana. Marcamos de nos conhecer na República. Tivemos um papo agradável, e eu contei que não estava a fim somente de sexo, pois tive experiencias bem tensas com relação a isso e não devemos negar nossa natureza. Ele também não queria somente sexo. Dito isso, depois de muito rodeio, fomos pra um motel.

Tivemos uma noite muito gostosa e agradável. Depois do acontecido, olhei pra ele enquanto se vestia. Fiquei admirando aquele rapaz, simples, bonito sem exageros, corpo em formas naturais, sem precisar tirar nem por. Não sei o que me deu, avancei e o beijei. Senti que dessa vez tudo poderia dar certo.

Nosso segundo encontro foi na Paulista, nos encontramos e caminhamos, conversando sobre muitas coisas. Fomos ao parque Trianon masp, e sentados, nos encostamos um no outro e ficamos conversando sobre antigos relacionamentos. Ele demonstrou ter os mesmos medos que eu. Falamos de doença, e de se cuidar, e ele começou a procurar no celular um posto de saúde ali próximo pra gente fazer um exame rápido. Não encontrou nenhum, e fomos ao shopping, conversando juntos por algumas horas. Depois, comemos no mac, e ele viu um ex dele, demonstrando um pouco de tristeza. Falou um pouco de sua família e eu da minha. Estávamos nos aproximando cada vez mais, e eu estava gostando daquela simplicidade.

Para nosso terceiro encontro, marcamos de nos ver no Tatuapé, e caminhamos conversando por lá. Foi bastante agradável, e eu só pensava em pedir pra ele para irmos no motel que parecia me chamar ali perto, porém ele me levou a uma estrada perto do shopping e ficamos nos beijando ali. Muito gostoso. Alguns carros passando começaram a mexer conosco, e achamos melhor partir.

Mas então, como é minha vida, e não um conto de fadas, o declínio começou.

Odisseu fazia faculdade na época, e eu tentei diversas vezes marcar algo com ele, mas sem sucesso. Ele nunca podia. E o pior, suas mensagens de celular eram sempre coisas vagas, sem nenhum aprofundamento, sem curiosidade sobre nada. E essa falta de atenção me fez desanimar. Desabafei por SMS com ele, e decidimos terminar, já que ele estava vivendo em um período muito conturbado e corrido. Em sua última mensagem, me escreveu.

"Você me marcou muito e vou guardar você no meu coração quebrado, não tenha dúvidas disso."

Olhei pra mensagem, e sem dó, deletei, sem respondê-lo...
 
Isso foi no final do ano passado... Atualmente Odisseu está namorando, claro.

domingo, 4 de novembro de 2012

Odisséia do Menino Devasso: Parte Final: Contra a natureza


Fiquei devendo o fim dessa minissérie, e acho que foi isso que mais me travou pra continuar escrevendo. Os fatos são de mais de um ano atrás, então não tem muito sentido ser extremamente detalhista. Aconteceu que me deparei com um rapaz, de nome Batista, em um site de relacionamento (eu como sempre cometendo os mesmos erros). Durante as mensagens que trocamos via SMS, contei a ele um pouco de mim, e falei da minha experiencia de ser dominado por um cara (como narrada na primeira postagem dessa minissérie). Ele achou bacana e prometeu fazer o mesmo.

Na Paulista, encontrei com ele e sem muita conversa, entrei em seu carro. Tentamos conversar durante o percurso, até mesmo pra quebrar a tensão. Entramos em um motel bacana e saímos do carro, deixando os RGs na entrada. Subimos as escadas, e me dirigi ao banheiro. Quando sai de lá, ele estava nú na cama, e olhei com estranhesa. Eu sou adepto das preliminares, de tirar a roupa aos poucos, beijar muito pra entrar no clima...

"Tira sua roupa."

Ele pediu, e eu, com receio, o fiz, adentrando na cama. Percebi que ele se esquivou de me beijar, e tentei entrar no clima, mas sexo sem intimidade não era meu forte. Me segurou forte, me mandando chupá-lo, e eu levantei da cama às pressas.

"Espera... isso tá estranho..."

Falei, e ele me agarrou de volta, levando minha cabeça a seu pau. Me recusei novamente, e ele tentou me virar. Evitei, empurrando-o, e falei que o clima não estava legal.

"Ok... fazer o que... se você não curtiu, por que viemos aqui?"

"Não sei..."

Respondi, constrangido, enquanto ele se vestia.

"Você deu sorte que sou de boa, poderia não ter dado tanta sorte assim..."

Saímos do quarto a menos de dez minutos depois. Fui em silêncio por todo o trajeto, e ele me deixou na porta da estação de trem. Foi embora sem olhar pra trás. Essa foi minha maravilhosa experiência de fast foda. Literalmente "fast". Sentei na porta da estação, admirando as pessoas a toda velocidade entrando e saindo da estação. Nunca me senti tão só, tão envergonhado e tão sem saber o que queria. Só queria sumir. Eu não podia ser o menino devasso, afinal.

Quis chorar, e não consegui...
segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Saudoso Fim dos Tempos


"Há um fluxo nas coisas dos homens que ao seguir a correnteza, leva fortuna, mas omitidos a viagem de suas vidas ficam envolvidas em sobras e desgraças, esse mar imenso que navegamos e devemos seguir a corrente, ganhando ou perdendo o desafio diante de nós." (Ricardo Soares Barros)

Faz quase um ano que não publico por aqui, provavelmente quem acompanhava minha jornada abandonou esse navio... peço desculpas a todos por não ter dado satisfações ou mesmo um final decente ao Nosso Lugar ao Sol. E tanta coisa aconteceu, ainda que pareça que nada aconteceu. Minha vida parece estacionada, enquanto a necessidade de mudar grita dentro de mim. Minhas dúvidas existenciais perduram, e não, não encontrei, nem passei perto do meu Lugar ao Sol nesse mundo.


Com a iminência de mais um fim de mundo prestes a chegar, dessa vez predito pelos maias, em quem confio mais do que em Nostradamus, é impossível não se deixar levar pelo devaneio da possibilidade do fim. Ah, o fim, o que é pior em se pensar sobre o fim, é que ele me faz sentir confortável depois de tudo. Sempre tive medo do fim, mas de como será, e não de seu acontecimento em si. E no 
período em que estou vivendo, de total inércia, não seria dispensável o fim. Pensar nele me conforta. Não quero ser pessimista, estou apenas colocando as cartas na mesa, e não há nada que me prenda a essa vida. Não há paixão avassaladora, nem força intrínseca que me faça querer viver, sobreviver e lutar. Tenho um projeto pessoal que dura anos e que as vezes penso que se ele não der certo não terei nada. E dependo da sorte pra que ele dê certo, de uma grande conspiração universal acontecendo. Será que essa muleta pode me sustentar por muito tempo? E o pior, não quero depender apenas de um objetivo, pois se ele se cumprir, o que me restará?


O amor ainda perdura em seu enigma, quase inexplicável... quase como um unicórnio, fugindo de mim, nunca se manifesta. Ah, amor, onde está você? Vivi um ano seco, frio, sem carinho, me entreguei a caprichos da vida em busca de realizar prazeres ocultos, e não 
passei vontade em nenhum deles. Experimentei, e voltei ao princípio. Sim, voltei pra cá, onde um dia recebi conforto de pessoas que sempre gostei de dialogar. Estou perdido, em um deserto onde não há sol. Procurei o amor, sem sucesso, e meu coração continua quebrado e sem remendo. Não esqueço antigas paixões, e reencontrei algumas. E mais decepções surgiram, como de praxe. Eu não entendo como uma pessoa pode continuar no mesmo ciclo por tanto tempo. Avaliando esse um ano que estive fora... são os mesmos problemas, a mesma alma doente e triste que lhes escreve. Por que não consigo mudar? Por que não posso experimentar o amor, em sua forma suprema? O amor é pra mim um grande mistério, como Deus, que não entendo, e nem ouso querer entender.


Um ano se passou, e nunca a necessidade de mudar gritou tanto dentro de mim. A vida parece toda errada. Mas pensando no copo "meio cheio", surge dessa necessidade de mudança interior algo bom. O que seria de nossas vidas, se tudo permanecesse? O que seria de nós, se não houvesse mudança? Temos tendencia a detestar que as coisas mudem. Mas do jeito que estou, não posso continuar. A jornada continua, o objetivo é encontrar meu lugar, ainda que ele mude nos tempos que virão. Será a profecia maia o fim, ou apenas uma grande mudança no mundo e na vida de seus residentes, como uma necessidade do próprio curso do mundo em se renovar, assim como todos nós? Que venha o fim do mundo, porque não tenho nada a perder.... estou pronto.
sábado, 3 de dezembro de 2011

Odisséia do Menino Devasso: Parte II: Persistência do vazio



E como o furacão que atingiu Dorothy e a levou para o mundo de OZ, no qual ela enfrentou seus medos e sua obscuridade, minha vida transformou-se em um grande tornado arrastando a tudo pela onda da descasualidade. Entrei na onda de curtir o momento, e por um tempo, foi bom.

Primeiro veio o Raimundo, um cara do site de bate-papo mais mercadão que conheço. No mesmo dia, marcamos na cidade aqui perto, para ir ao cinema. Estava caindo uma chuva fraca, mas nos encontramos e curtimos. Conversamos, caminhando no que parecia ser a direção do shopping, mas então ele interrompeu o caminho e parou em um motel. Entrei.

Rolou só o básico, não me senti tão bem para realizar completamente, mesmo por que não é de meu costume conhecer e já transar. Mas nos satisfizemos. E sumimos, sem ter que dizer nada. Ficou subentendido que não passaria daquele lance.

Na balada, conheci um cara de quase dois metros, e em clima de caça, fiquei olhando para ele, até que rolou uns beijos e nos entendemos bem. Até uma dança aconteceu, e foi incrível. Mas não nos ligamos mais.

Foi então que, no bate papo, conheci Fabiano, um cara bem legal. Marcamos de ir a um cinema ver o lançamento da segunda parte do Harry Potter 7, e foi um papo divertido, uns beijos discretos na saída do cinema. Realmente curti, e no MSN, tentei marcar algo, porém ele disse que estava com uns amigos em casa, que dormiram por lá. Mais tarde, vi escrito no MSN dele “balada the week hj a noite”. Deletei sem dó.

De volta à balada, semanas depois, vi o Fabiano, que ao me ver caminhou até mim, e quase me beijou, mas segurei no peito dele.

“Não lembra de mim?”

“Claro que lembro!”

Respondi, com raiva. Ele em seguida saiu, fazendo-se de vítima. Me impressiona a cara de pau das pessoas. Dançando na pista, me aproximei de um cara baixinho, e bem gato, que dançava todo animado. Dancei perto dele, e em determinado momento, encostei atrás dele, encoxando-o (nunca tinha feito isso...). Ele gostou, tirou a camisa, e pude ver aquele peitoral gostoso. Nos beijamos e caminhamos embora juntos.

“Só tem um problema.... eu moro em Campinas. Não é sempre que venho pra cá.”

Era bom demais para ser verdade. Tinha que ter um empecilho. Ele pegou o carro no estacionamento da balada e me levou até a estação.

Conversamos por e-mail durante a semana, combinando de se ver no domingo. Chegando o dia, achei o encontro meio vago. Me pegou, entramos no carro e acelerou para um motel. Combinamos que não ia rolar o sexo (de novo), e rolou umas brincadeiras. Achei-o meio parado. Com tudo aquilo de corpo e sem oferecer uma pegada boa.

Passei por um período de recesso. Sem encontros, sem homens, sem balada. Só trabalhando. Mas a necessidade de ter alguém sempre fala mais alto, vindo de fininho, e vai dominando aos poucos. Era hora de voltar a ativa. Mal sabia eu o que estava por vir...

domingo, 18 de setembro de 2011

Odisséia do Menino Devasso: Parte I: Homens, Sexo e rock´n Roll


Após a desilusão com o EX-Marido, decidi não ser mais o garoto inocente. Decidi deixar de ser o tonto que fica esperando o príncipe do cavalo branco. Afinal, nunca tive uma OBI sequer que fosse possível ter algo mais do que um sonho. O Marido era essa esperança. E ela morreu. 

Foi então que decidi avacalhar e partir para o descompromisso. O melhor local pra encontrar algo rápido e sem aprofundamento é a internet, e lá fui eu utilizar esse veículo pra conseguir me satisfazer. 

Entrei na rede social “Troca-Troca” (extinta, ao que parece, pois sumiu da web) e conheci um rapaz. Morava na cidade vizinha, e marcamos para o mesmo dia. Trocamos telefone. Voz legal, decidi sair com ele. Ficou de me buscar na estação de carro. Quando chegou, senti uma mistura de medo e adrenalina. Era a primeira vez que eu entrava no carro de um cara. 

Fomos para o shopping de Osasco, conversando mais sobre os ex-casinhos dele do que outra coisa. Achei o papo divertidinho, mas confesso que não estava no clima de conhecer para algo sério. 

“Hoje em dia ninguém quer nada com nada, Rud, todos só querem saber de sexo. Por isso ainda estou solteiro.” 

“Sim, é complicado, Tito... É complicado mesmo.” 

No shopping, não achamos horários para filmes, e então decidimos ir pra casa dele. Ser práticos. Nos beijamos no carro, nada de extra. Mas meu objetivo não era só ficar no beijo. 

Ao chegar em sua casa, me deparei com aquela bagunça, não pude deixar de me incomodar. Na verdade tudo ali estavam me incomodando. Os beijos dele, o fato de estarmos tirando a roupa. Não era pra ser assim. Eu estava entediado. Então, abri minha boca em meio aos beijos dele e disse: 

“Já dominou alguém?” 

Acho que todos já devem ter visto na vida ao menos um videozinho mais hardcore que fosse, com homens dominando rapazes mais fracos, com um ar de superioridade. O Tito nunca tinha feito... 

Nunca TINHA feito... 

Naquela noite, aquele tédio se transformou em uma das experiências mais interessantes que eu tive. O romântico, enfim, morreu, dando lugar ao devasso adormecido.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O fim de uma saga



E aconteceu que, como todos sabem, eu e o Tyler, vulgo "Marido", estávamos trabalhando no mesmo local, por coincidência ou ironia do destino. Nesse ínterim, fiz amizade com uma bela moça, Sunshine, que sentou-se ao meu lado (ela era da equipe do segundo andar, mas veio fazer um trampo no local, e nos tornamos amigos com facilidade). Ela também tornou-se amiga do Tyler, e em uma festinha de confraternização de aniversariantes do mês, eu o encontrei. Ele apertou minha mão, olhando nos meus olhos, e depois saiu. Fiquei observando-o de longe, de amizade junto a outros que eu desconfiava serem gays do setor de cima. Como eu podia ser tão deslocado naquele lugar? Todos pareciam ter um lugar. Até a Sunshine tinha sua equipe.


Um dia fui lanchar com a Sunshine e o Tyler surgiu. Conversamos um pouco. Falaram sobre o show da Katy Perry e eu fiquei na minha. Como a Sunshine podia ser tão cega de não ver que ele era gay? E como ele podia ser tão hipócrita e ficar tão na defensiva? Um ar de tensão ficou pairando entre nós três. A Sunshine me contou que o Tyler tinha lhe dito que se ela não namorasse, ele a pediria. Eu devia ter dito: “É, ele diz isso pra todos...”
Algumas vezes o yler foi no meu local de trabalho e eu (tonto) ficava esperando ao menos um cumprimento. Nem isso acontecia.
Então, os meses se passaram, e fiquei sabendo que o contrato do Tyler iria vencer, tal como o da Sunshine, ambos temporários. Fiquei triste principalmente por ela. Minha única companheira. Ela conseguiu destacar-se nos últimos dias e continuar efetiva na empresa, mas Tyler não teve a mesma sorte.
Alguns dias antes do fim para o Tyler, eu voltava do banheiro e ele surgiu no corredor.
“Ei, estou indo almoçar, quer vir?”
Perguntou, e eu me lembrei de todas as chances que ele teve de me fazer aquele convite e do quanto insisti para que acontecesse.
“Não, vou mais tarde.”
Ali, me libertei... 
No dia do Tyler partir, ele foi ao meu setor. Despediu-se de sua amiga no local, e nem olhei para ele. Ele partiu sem nem olhar para mim. Assim, terminou aquele sonho de uma pessoa inocente. Eu sempre acreditei em suas palavras enquanto era online e irreal. Mas então, quando tornou-se real, vi a verdade de uma pessoa muito mal resolvida emocionalmente. E me vi nele. Mas ao contrário dele, ao menos não minto mais pra mim.
O último resquício de um romântico esperançoso morreu com aquele adeus silencioso. Chegou a hora de nascer um Rud prático, desprovido de sentimentalismo. Assim é o mundo gay. Frio, carnal e mentiroso, e preciso sobreviver nele...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eu juro que tentei



Há uns tempos atrás, escrevi a última postagem desse blog. Estava perfeita. Música escolhida, palavras finais bonitas, uma grande lição de moral final e definitiva, digna de mim, melancólico, dramático e esperançoso como sempre.

Quando terminei de escrever e estava pronto pra postar, acabei apertando um botão que fez apagar TODA a mensagem e o auto-save do site se encarregou de destruir meu desfecho perfeito. Perdi tudo.

Duas coisas que eu aprendi com isso: Não escrever nunca mais no editor do blog (estou em um bloco de notas) e que talvez aquilo que achamos que seja o certo em determinado momento não seja o certo para o resto da vida. Não estou pronto pra cancelar esse espaço, ainda que fique em divida com meus poucos e bons leitores (alguns até temem que eu esteja morto, rsrs [não sou suicida, gente!! Nem tendencia eu tenho, heh]). Porém, eu o criei em um momento da minha vida em que precisava criar, em que tinha um objetivo, e agora, meio que as coisas por aqui perderam um sentido. Mas não estou pronto pra dizer adeus. Minha rotina mudou, meu mundo mudou, uma nova fase começou, tão exaustiva que eu não tenho forças pra relatar aqui. Se algum dia o tiver, espero que o faça. Se não, ao menos ao fim dessa fase talvez as coisas venham a mudar.

Enfim, aos que tiverem paciencia, penso que essa é uma pausa involuntária, uma busca pelo lugar ao sol do lugar ao sol, pelo sentido de continuar postando aqui. Se eu não encontrar um sentido, volto pra me despedir, mas se o encontrar, terei o prazer que agora me falta de escrever.

Amo esse espaço.... e gosto muito dos comentários de todos. Desculpem o retiro e abandono, mas AINDA não é o fim.

Abraços a todos.
quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dicas ao Sol: Não gosto de meninos



Sem muito o que dizer...

domingo, 15 de maio de 2011

Virada Cultural nada especial: Entre o peão e o designer



Já faz um bom tempo que não posto, e por mais que eu sinta que há necessidade de colocar um ponto final nesse blog pra que ele termine com dignidade e não seja simplesmente desses que caem no esquecimento total, algo me diz que ainda não é hora.

Ultimamente, minha vida tem sido uma sucessão de fatos estranhos e sem nexo. Eu costumo encontrar facilmente um sentido para tudo, mas dessa vez está bem complicado. Vou tentar não fazer mais posts tão grandes e tentar postar mais, o que não tenho no momento é tempo pra fazer aqueles posts enormes. Ainda assim quero resgatar um pouco do que o blog era, mesmo por que aqui virou um drama só.

Finalmente liguei o botãozinho do F%#$ODA-se na empresa e deixei de lado as pessoas que não gostam de mim. Aprendi que tenho que gostar de quem gosta de mim e dane-se os outros. E funcionou bem. As coisas não me abalam mais. Seja conversas em grupo que não me envolvem, seja panelinhas. Estou de fora de tudo isso. E percebi que é o melhor que faço. Tanto stress psicológico pra nada, simplesmente não vale a pena.

A virada cultural desse ano, ao contrário do ano passado que foi um ótimo evento, foi meio que um fiasco. Tentei contato com várias pessoas que disseram que iriam e na hora "h" simplesmente desapareceram. Como companhia, tive um ex-ficante da "T", falei dele aqui mas não lembro o nome que lhe dei aqui e nem achei o post em que falei dele. Enfim, ele teve a pior noite de sua vida. Antes de me encontrar, encontrou seu ex, que, bêbado, quebrou seu cartão de débito. Fomos ao show do Sepultura na praça da Luz a meu pedido, pois a banda iria fazer uma performance com uma orquestra. O show foi perfeito até a banda começar a cantar e cadeiras de plástico (burramente) colocadas para que as pessoas se sentassem começassem a voar... Pensei que ia morrer no local, com as pessoas tentando fugir das cadeiras e do arrastão. Tivemos que pular o alambrado e correr, foi bem excitante. Meu parceiro teve o celular roubado e isso estragou a noite. Nos deitamos no gramado da praça do Anhangabaú e a noite não estava muito boa. Resultado: Voltamos antes do amanhecer. Quatro horas cheguei em casa...

Semanas se passaram, sozinho naquele estudio, sem ligar pra ninguém. Tive que fazer plantão em um sábado, no qual entrei nove da manhã para sair às duas. Dinho foi comigo e não é que até rolou um papo sobre músicas, câmeras fotográficas e outras coisas interessantes?! Na hora da saída, cruzamos com um rapaz na porta do estúdio, um que sempre cumprimento, e ele perguntou:

"Que horas você entrou?"

"Nove."

"E já está indo embora? Não acredito, tô aqui desde as seis..."

Descendo as escadas com o Dinho, ele disse:

"Por que você não o mandou ir estudar? Odeio esses peões miseráveis..."

O que o sr. Dinho não sabia era que eu já tinha sido um peão como aquele e até senti um certo orgulho disso. O que o sr. Dinho não sabia é que eu era mais feliz quando era um peão, pois conheci pessoas maravilhosas. Me vi entre o peão e o designer, e estranhamente me identifiquei mais com a humildade do que tinha sido. Nunca deixarei essa humildade pra trás, muito melhor do que ser esse tipo de gente com a qual estou convivendo...
domingo, 1 de maio de 2011

Dicas ao Sol: Sobre homens, grupos de homens, e a decadência do contemporâneo



Faz tempo já que não dou dicas por aqui, então vamos a um rápido post.


Esse video é bem legal, vejam com paciência:





E aqui, uma sintese de tudo que tenho vivido, vlog muito bom esse:





Eu renego todo tipo de panelinha e grupo, viver só é minha sina voluntária...
sexta-feira, 22 de abril de 2011

Inatividade



Como a maioria dos que lêem deve ter reparado, a frequencia de Posts por aqui tem sido escassa. Os motivos são muitos, mas a principal razão é a falta de interesse que tenho de narrar a vida cotidiana que tenho levado atualmente. Simplesmente não tenho o que dizer, melhor não dizer nada. O que posso dizer é que depuz minhas armas e estou deixando a vida acontecer. Sempre fui de correr atrás das pessoas a minha volta, de dar minha cara a tapa, de lutar por amizades que tive. Lutei muito pra segurar as pessoas perto de mim. E o resultado foi o esperado. Todos se foram. O momento não é mais de lamento, mas de reflexão. Avaliar onde errei, pra que um dia, se conhecer pessoas novas, não me torne um fardo a elas, não me torne alguém a quem não se quer por perto. Mudei de estratégia. Quem quiser partir, que parta. Não vou forçar minha presença na vida de ninguém, não tenho esse direito. Sou um fardo a mim, imagino aos outros.

Há duas frase que acho bem interessantes:

"Seja indispensável na vida de alguém." e "não vou tratar como prioridade quem me trata como opção". São frases de efeito de orkut e msn, mas acho-as interessantes, dizem muito sobre esse período.

Na primeira frase, falhei feio. A segunda diz respeito a uma frase que ouvi de uma pessoa sobre amizade e opção que prefiro não repetir. Por um tempo, fui o melhor amigo dos meus amigos. Acho que esse tempo se foi. Como diria os Beatles, let it be, deixe estar.

Ontem estava procurando um namorado.... hoje tenho que reconstruir toda minha vida... faz parte.
quarta-feira, 6 de abril de 2011

Degradação social e o desejo de partir



Caminho em uma frequencia diferente do fluxo de minha própria vida, e não me entendo. De verdade. Realizei finalmente meu objetivo e por um tempo, foi bom. Mas depois de um tempo, percebi que por mais que eu lutasse pra me encaixar, eu não consigo. Sou uma carta fora do baralho deles. Esse post infelizmente é um desabafo, antes que eu cometa uma besteira.

Há tempos, anos a fio, não pensava em me matar. Essa noite, voltando pra casa, eu pensei novamente. Saltar do alto do Banespa no Anahngabaú foi um pensamento que me deu um friozinho na barriga, mas cheguei à conclusão que seria uma morte muito feia. Queria uma morte bonita. Desejei que Deus, em sua sabedoria, me mandasse seu anjo da morte hoje. Que fosse rápido e indolor, um tiro no peito esmigalhando esse coração seco, sem amor, sem importância. Eu finalmente responderia o maior mistéiro da vida, pronto pra voltar a viver, ou pra reencontrar quem se foi, ou mesmo pra simplesmente deixar de existir... até quem sabe encarar o que ninguém jamais imaginou, posto que a morte pode ter sido imaginada como é, ou pode ser como algo que jamais ninguém pensou.

Enfim, foi um pensamento de fraco, mas sou fraco. Tão fraco que não tenho coragem de tirar minha própria vida, acreditem, se tivesse esse post não estaria no ar. Não estou querendo pena de ninguém, nem que se preocupem comigo. Ainda que seja fraco, sou forte o suficiente pra continuar levantando, ainda que seja penoso.

O pesar se deve ao mal que assola toda a humanidade moderna para os que abrem seus olhos. Estamos todos sós. Mas o pior não é apenas se sentir só, e sim ter provas conclusivas dessa constatação. Começou há quase um mês no meu novo emprego. As pessoas que conheci, oito de uma equipe de tratadores de imagem, aos poucos demonstraram não ter nenhum interesse em minha integração com eles. Sempre que precisei de ajuda, recorri à minha supervisora, sentada ao meu lado, a que me colocou lá, que conhecia meu irmão dos tempos de um emprego em que trabalharam e que pareceu a única disposta a um diálogo interessante. O restante da equipe, nada. Nenhuma conversa direcionada a mim, todas as piadas que faziam era de um repertório interno que só eles entendiam, vindo de vídeos vistos e fatos vividas, apelidos com suas próprias histórias e situações que eu não compreendia. Até ai tudo bem, pensei. Eles devem demorar pra aceitar um novo membro no grupo, é normal um estranho invadindo seu espaço.

Mas então, em uma sexta feira, ouvi de um deles que o rapaz novo, que entraria segunda feira, era um amigo de um dos membros da equipe. Eles começaram a rir do nome engraçado do rapaz e um deles falou algo que é melhor ter ouvido do que ser surdo:

"Esse ai já vai entrar enturmado na equipe."

Dito e feito. Segunda feira, a supervisora me mudou de lugar pra ponta da fila, sentando-me ao lado de Dinho, o rapaz que, em momentos em que a supervisora não estava, me auxiliava (com muita má vontade). E eu, involuntariamente, escutei TODO o treinamento que ele deu ao novato, muito do que se eu tivesse recebido quando entrei, não teria tido tantos problemas. Em um momento, o rapaz saiu da sala e seu amigo que o indicou perguntou:

"E então, o que achou do rapaz?"

"Parece bem legal!!"

Não parecia. Era como eu, meio timido, meio acanhado, não tinha dito nada de legal até então. A única coisa que o fazia legal era o fato de todos o terem elegido o novato legal. E eu, o cara chato, mudo, deslocado.

Hoje, terça, segundo dia do rapaz, já estavam aos risos, compartilhando histórias sobre os apelidos que nunca entendi, prometendo mostrar todos os repertórios de vídeos que eles vêem e riem, para que o novato se integre a eles, contando o sentido de suas piadas internas, puxando diversos assuntos aleatórios que sempre que tentei puxar com o Dinho e ele apenas respondia sem prolongar assunto. Comparei cada frase, cada atitude, cada riso. Em dois dias, o novato conseguiu aquilo que de início tentei, mas depois desisti: entrar para a equipe.

E o que não é essa solidão no emprego senão uma grande metáfora de minha existência? Minha meia dúzia de amigos ou mora há quilómetros de São Palo e quando vêm pra cá não têm interesse em sair ou já se arranjaram e estão amando, sem tempo pro que restou da amizade. Não tenho amigos senão por telefone, minha vida é vazia de pessoas a quem possa abraçar e acreditar que gostam de mim. Não sei amar e não sei se alguém algum dia já me amou ou ao menos gostou de mim incondicionalmente, com minhas falhas e erros, torto como sou. Não sei me integrar. Ando solitário por essa vida. Nunca me importei até hoje, vendo aqueles risos daquelas pessoas parecendo ignorar minha existência:

"Estou treinando você por que se seu amigo o fizesse, ele só te zoaria. Vamos deixar a zoeira entre nós pra daqui mais ou menos uma semana, quando tiver mais intimidade, quando você for um brother nosso."

Pérolas que eu ouço o dia todo direcionadas ao novato, como se me ignorassem ao lado, ouvindo tudo. Não quis me matar por essa idiotisse de não estar integrado às pessoas que trabalho, mesmo por que converso nos intervalos com vários do andar de cima. A questão é que pareço não estar integrado à própria vida que levo. No fundo de mim, nesse escuro sem fim, não encontro paz. Estou só, sou só, e nada nem ninguém pode mudar isso. Chego à constatação de que NÃO CONSIGO ESTAR SATISFEITO NUNCA.

Se eu morresse, demoraria quanto tempo pra cada amigo meu, à distância, descobrir? Dias, talvez meses, talvez nem soubessem. Enfim, vou cavando minha própria cova social, afundando no desespero silencioso de mais uma vez ter sido quase feliz. Sempre quase amei, quase me satisfiz, quase sosseguei. Por sorte ou azar, pra morte não há quase... Nesse ritmo, terei quase vivido, e isso não quero jamais. Novamente busco minha salvação em algum objetivo desconhecido, por que só o que me move é a expectativa. Como não as tenho, me falta forças pra caminhar. Buscarei objetivos pra não definhar nos pensamentos fúnebres.
segunda-feira, 4 de abril de 2011

Retiro



Sem pensar em um plano B
Falhei em minhas expectativas.
Com esperança, confiei que a competência vencesse
e ainda que tivesse prometido não desanimar
desanimei.

Já diz o velho ditado
que quando a vida nos quer castigar
atende nossos desejos
não foi diferente comigo
mesmo na vitória não encontro conforto.

Tudo que eu quero é não me importar
tudo que eu quero é ignorar a opinião alheia
é desconsiderar a importância do outro
quero independência pessoal

quero respirar por mim mesmo
quero não precisar de ninguém
ainda que isso me torne menos humano
Pra que humanidade em um mundo
que se esqueceu de acreditar?

Quero correr
quero saltar
mas sou preso ao outro
por que os olhos alheios
pesam tanto sobre meus ombros?

Retiro-me de meus projetos
de minhas esperanças
de minhas falhas
Estou me fechando
na escuridão de dentro de mim
e não há luz...

não houve luz...
sexta-feira, 18 de março de 2011

Forasteiro silencioso e o significado da felicidade



"O novo é necessário.
Mas ninguém gosta do novo.
O novo incomoda.
Tudo era bom antes da chegada do novo.
A mudança é a quebra da estabilidade.
Viva a tradição. Descartem o novo..."

Tenho vivido dias solitários nas últimas semanas. Como sempre, a vida mostra que mesmo me dando algo, ela tira outra coisa pra manter o equilíbrio natural que povoa minha vida. Sou eternamente insatisfeito, logo, infeliz por natureza. A infelicidade parece um vírus que não me abandona.

Como vocês acompanharam nos últimos Posts, eu finalmente conquistei meu lugar ao sol no quesito de emprego, o que me deixou muito satisfeito. Porém, por mais que eu esteja (e estou, acreditem) adorando a nova experiência, eu fui o único a entrar no meu setor, o que criou um clima estranho no ambiente. Me sinto um invasor. No local, que eu achei poder ser um local de oportunidades em achar alguém no mínimo interessante, o que encontrei foram pessoas bem resolvidas, jovens, alguns com filhos, cheias de pequenos preconceitos de prache da sociedade, piadinhas contra homossexuais rolando natural e constantemente, como se ser "viado" fosse como ser uma aberração e como se chamar o outro de "viado" aumentasse a própria masculinidade, vários papos entre eles que eu não entendo por que não estou inserido na linguagem deles... Enfim, há uma microsociedade formada e eu sou o forasteiro silencioso. Só falo quando tenho dúvidas, e eles são bem atenciosos, mas não se esforçam pra me integrar na equipe.

Resumindo... o preço da satisfação parece estar sendo pago. Me sinto só...

Aproveitando a abordagem, decidi definir a felicidade, na minha opinião. Felicidade pra mim não existe. Ao menos, não como é conhecida. Aquela felicidade do eterna e prometida, nunca poderia ser vivenciada, mesmo porque é impossível o mundo sem uma balança entre contrários. Eu considero a felicidade como nível de satisfação. Estar feliz é estar satisfeito. Estar infeliz te obriga a a se mover, a procurar a satisfação. O objetivo de todos, seja trabalhando, seja estudando, amando, seja fazendo o que quer que faça, é a busca da satisfação própria e das pessoas a sua volta. Pra mim, quando estamos satisfeitos com um aspecto de nossas vidas, os outros se afloram pra nos dar mais motivação em busca da satisfação completa. E ela não existe e não pode existir. No momento em que estivermos satisfeitos em todos os aspectos, de duas uma: Ou estaremos nos iludindo, ou nossa vida perdeu o sentido. Olhem nos orkuts e Msns da vida, estão cheios de pessoas "felizes", "satisfeitas" e "contentes". Questionem esses perfis. Eles trazem as pessoas mais rasas do mundo. Ninguém é ou está feliz o tempo todo, isso é mera ilusão, e graças a Deus que é, pois pensem como seria um mundo de plena satisfação! Que chato...

Então, um brinde à insatisfação e a infelicidade que nos move em prol de nossos objetivos. Abaixo o culto da felicidade que nos quer obrigar a ser rasos e contentes. Ser feliz holywoodianamente parece ser uma obrigação de nossa sociedade, e não à culpo. Analisando sociedades anteriores, a mulher não tinha direito à satisfação, era submissa, e o homem vivia pra trabalhar e trabalhava pra viver e sustentar a família. Plenamente heterocentrista, sem variações. O mundo mudou, direitos foram alcançados e a felicidade pareceu um direito conquistado, um dever social. Se estou feliz, atraio pessoas. Se sou depressivo, às afasto. Pois pra mim as pessoas mais interessantes desse mundo são aquelas que tomaram consciência de que não podem ser plenamente felizes, mas que lutam por um mundo diferente, por uma vida melhor, por uma causa inexplicável, que não se contentam com o tédio de viver satisfeito com pouco. Os heróis, os revolucionários, os escritores, os gênios não pensam na satisfação própria, mas do mundo em que vivem, da satisfação geral, pois essa causa a sua, ainda que a alcancem através da própria angústia exposta. 

Aproveite os poucos momentos de satisfação que tiver, pois eles lhe serão raros e únicos. Aproveite cada momento de angústia que viver, pois este será responsável por seu crescimento cada vez maior e lhe conscientizará de que precisa encontrar a sí próprio e a própria satisfação. Vamos rumo à felicidade, ao lugar ao sol, à satisfação ou ao que quer que a nomeiem, pois viver por ela, ainda que utopia, é a única coisa que nos vale a pena.
domingo, 13 de março de 2011

Amor eterno e incondicional...

"Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo."

O Pequeno Principe



Hoje vou falar sobre o amor. O amor em sua forma mais incondicional existente. O amor mais puro de todo o universo. Hoje vou falar de um ser que mudou o rumo da minha vida nos últimos onze anos, mais especificamente nos quatro ou cinco últimos. Seu nome era Xuxa, uma cachorra que viveu junto conosco por todo esse tempo, nos trazendo alegrias, preocupações e transformando nossas vidas de forma inimaginável.





Xuxa, que nunca soubemos de qual raça era (talvez uma mistura de Yorkshire com vira-lata), dessas que não crescem muito, foi sempre pequenininha, porém altiva e forte. Chamávamos de cachorra metida, pois passava com o rabão empinado e parecia ser chefe dos cachorros do quintal, sendo a mais velha da trupe. Cachorros vieram e cachorros foram, mas ela perdurou. Como moramos em um quintal familiar, inicielmente ela pertencia às nossas primas. Mas um fato mudou tudo alguns anos atrás.

Xuxa engravidou. Como todos sabem, cachorras quando engravidam vão ter os filhotes em locais escondidos. Ela se escondeu perto de minha casa, dentro de uns entulhos, e minha mãe, vendo aquilo, ajudou acomodando-a e a seus filhotes quando esses nasceram.

Mais ou menos um mês depois, deu uma enchente aqui no quintal, e, desesperada, a Xuxa subiu em um local mais alto, uivando pra que alguém salvasse seus filhotes. Minha mãe foi quem os salvou e colocou junto dela. Após desmamarem, as filhotes foram dadas, mas daquele salvamento nasceu o maior amor que eu já vi. Xuxa abandonou seus donos antigos, ficando na nossa porta, às vezes entrando em casa. Criamos um cantinho pra ela com uma almofada e ela passou a viver aqui. Sempre que eu ia no banheiro, passava por ela e ela me acompanhava até a porta, esperando que eu saísse. Quando saía, à enchia de carinho e ela, toda manhosa, ficava choramingando. Pode-se ter certeza que nenhum bicho recebeu mais carinho nesse mundo do que ela.

Quando minha mãe saía pra algum lugar, a Xuxa ficava agitada, apreensiva e estressada, correndo pelos cantos farejando. O sossego só vinha quando minha mãe chegava. Ai era só festa. Ela sempre pulava e agarrava com suas patas nossas cochas, abaixando sua cabeça enquanto fazíamos carinho, choramingando como um filhote carente.

Decidimos não arriscar outra gravidêz e mandamos castrar a Xuxa. No dia em que a mulher veio buscá-la para castrar e a colocou na jaulinha, ela ficou nos olhando com aqueles olhões e nos bateu a primeira preocupação. Não aguentava ver aqueles olhos gigantes me encarando sem poder fazer nada. Mas ela voltou bem, e a médica disse que durante a castração, encontrou um princípio de câncer nela, mas conseguiu retirar antes que fosse um perigo. Se não à tivéssemos castrado, provavelmente teria durado mais alguns meses. Sua vida foi prolongada por anos.

Passei a me preocupar muito com a Xuxa quando soube que por duas vezes o carro tinha parado em cima dela, e ao invés de se esquivar, ela se encolhia no meio da rua. Sempre que um carro derrapava na rua ou brecava, eu corria pra ver se ela estava bem. Estabeleci uma relação quase de pai com ela, cuidando e dando todo o amor possível.

No fim do ano passado a orelha dela inchou e tivémos que levar ao veterinário pra fazer uma punsão (enfiar uma agulha pra tirar o sangue). Foi um dos momentos mais horríveis da minha vida ter que segurá-la pra realizar o procedimento sem anestesia devido á idade dela. Ela ficou com um cone na cabeça, desesperada pra poder coçar a orelha e no primeiro dia, desapareceu sem deixar pistas. Desesperado, fui atrás dela, correndo pelo bairro sem saber pra onde ir. Sentei no degrau de um bar fechado e pedi que ela estivesse bem, desesperado. Meu maior medo era que ela sumisse. Quando voltei pra casa, descobri que ela se refugiou debaixo da cama da sua antiga dona. Nunca fiquei tão aliviado.

No natal de 2010, sem nada pra fazer, eu passei com ela, que latia conta as bombas enquanto eu à abraçava, desejando um novo ano ótimo a ela. Compartilhamos muitos momentos juntos, repletos de felicidade. Ela ia de manhã fazer caminhada com minha mãe, se divertindo no parque aqui do lado de casa. Estava presente em todas as reuniões de família, era super lambida com as visitas, sempre esperando carinho.

Então, há dois meses mais ou menos, percebemos um inchaço em uma de suas mamas. Não achamos ser nada grave mas o inchaço aumentou e levamos no veterinário. A doutora diagnosticou como câncer (havia voltado) e disse que viajaria na próxima semana e poderia fazer a operação na semana seguinte. Esperamos, cometendo o maior erro de nossas vidas. Xuxa foi levada pra operação na semana seguinte e ficamos apreensivos no dia. Recebi a ligação e a doutora pediu pra eu ir com minha mãe até lá. Logo que chegamos, mesmo sem dizer uma palavra, ela começou a latir desesperada, presa numa jaula, provavelmente só sentiu nosso cheiro. A doutora disse que o câncer era irreversível e que a única opção era esperar. Quando o momento chegasse, teríamos que levá-la ao sacrifício. Com o pelo raspado bem curtinho (ela sempre foi peluda), Xuxa voltou pra casa, comendo na sua vasilhinha de comida. Vendo aquela cena, me dei conta da situação e comecei a chorar. Nos próximos dias, demos todo o amor possível a ela, já que era a única coisa que podíamos fazer. Ela foi forte o tempo todo. Colocamos uma almofada bem macia no quarto que era da minha irmã e ela passou a dormir lá, mas antes de dormir, ficava sempre na sala enquanto estávamos aqui, do lado da perna da minha mãe, fazendo parte de todos os momentos possíveis. Quando não queria comer, dávamos a ração na boca dela, que fazia um esforço. Um dia cheguei do serviço e me sentei do lado dela, colocando sua cabeça no meu colo. Cada vez que eu parava de fazer carinho, ela levantava a pata querendo mais. Dei comida na boca dela e fiquei lá o maior tempão. Sua respiração ficou bem difícil nos últimos dias, pois o câncer espalhara-se por todos os seus órgãos. Ontem, antes de dormir, passei no quarto dela e, como há muito tempo não fazia, ela abanou o rabo pra mim, que passei a mão nela antes de ir, sem nem imaginar ser uma despedida.

Hoje minha mãe me acordou dizendo que ela tinha falecido e fui me despedir. Prefiro pensar que ela morreu dormindo. Fomos enterrá-la perto da estrada e foi impossível conter as lágrimas e se lembrar dos bons momentos. Xuxa não morreu, apenas partiu, e está viva em nossos corações. Tenho certeza que há um local reservado pra todas essas almas que mudam nossas vidas com seu amor incondicional e sua alegria. Vou sempre me lembrar desse amor, por que tirando o familiar e de amizades mais próximas, foi o único que senti em plenitude e sinceridade. Só queria ter certeza de que um dia vou reencontrá-la e que um dia vou poder novamente lhe fazer carinho em algum lugar. Nessas horas a gente perde a fé, perde tudo. De que valem as conquistas se a gente perde quem ama? Espero que ela saiba que foi amada por nós, e que esteja olhando por nós lá de cima.

Boa viagem, Xuxa, e obrigado por nos proporcionar os melhores anos de nossas vidas.