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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Presente amargo


Esses dias, enquanto devaneava sobre romance com o Fulano, levantei a teoria de Gikovate sobre o amor, que no momento era a que eu mais estava aceitando. Segundo o psicólogo, o amor é a necessidade que sentimos de reencontrar o conforto intrauterino que perdemos no momento do nascimento. Somos gerados dentro de um espaço confortável cercado de afeto e, nove meses depois, somos cuspidos sem explicação, tendo que encarar toda a frieza do mundo. Um mundo hostil, pré-programado pra nos ferir por natureza. Nasce dentro de nós o vazio de encarar essa frieza, e sobra nossa esperança de reencontrar em alguém aquele conforto. O conforto intrauterino pode ser nosso lugar ao sol, pois é um porto seguro que preenche nosso vazio. Naquele instante, eu estava convicto de que encontrara finalmente o preenchimento do meu vazio. Acabara de reencontrar o rapaz que anos antes tinha sonhado em reencontrar, como a realização de um sonho distante. A química era evidente e todos os sinais apontavam para um romance.

Afinal, quão raro no mundo gay é encontrar alguém capaz de preencher esse vazio? Alguém cujos passeios aconteciam naturalmente, caminhando por São Paulo, tirando fotos e conhecendo lugares novos. Kevin preenchia minha necessidade de ver o mundo. Com ele viajei para a baixada, a minha primeira viagem com um homem e sem a companhia de familiares. O menino virando homem. Eu sou um aventureiro por natureza, e uma das minhas maiores crises é não ter quem acompanhe meu ritmo. Gosto de explorar, de sair sem definir o objetivo de vez em quando, mas tenho grande problema com a solidão. Queria ser capaz de abraçá-la, mas ai vem aquele vazio.

Enfim, acho que a pessoa ideal para nós é a que preenche esse vazio. E às vezes buscamos tão desesperadamente por algo que nos salve dele, que confundimos manifestações de afeto simples com algo mais. Acho que foi isso que se sucedeu com Kevin. Eu engrandeci sua imagem baseando-se no grau de importância que achava que ele tinha por ele ter comigo uma história de tempos atrás. E olha que a pessoa era problemática, e eu, em minha necessidade de preencher o vazio apenas abracei todos os seus problemas e tentei me acostumar.

Claro que o resultado seria desastroso, como poderia se prever.

Acontece que a pessoa começou a me tratar mal quando eu disse que nos tornávamos amiguinhos de internet. Simplesmente desapareceu. E eu fui ficando cada vez mais nervoso com a situação. levantei na minha cabeça várias teorias: Está fazendo isso por que quer me afastar e poupar sofrimento de ambos? Eu cometi alguma falha? Seria ele mais problemático do que eu pensava? Teria achado outra pessoa? 

Passei longe.

Vale ressaltar que o que Kevin me passava desde que começamos nossa relação, que depois chamou de apenas um lance, era a de que não podíamos ficar juntos apenas por conta de um mal timming, devido sua viagem. E eu acreditei, culpei o destino e me achei um azarado. Mas eu estava disposto até a esperar seu retorno. Eu estava disposto a qualquer coisa pra que desse certo.

Quanto equívoco.

Marquei com ele para nos encontrarmos no fim de semana, onde tentaria entender por que ele vinha agindo daquela maneira. Não aceitaria novamente que terminasse com pendências. Se era pra acabar, seria olhando nos olhos. Mas quando tentei marcar, foi grosso, respondendo apenas "ok" a tudo que eu dizia. Quanta hipocrisia, tratar assim alguém a quem levou pra cama e chegou até a dizer que amava (eu sempre acho um equívoco usar a palavra amor em momentos precoces, e evito usá-la. Sendo assim nunca retribuí os amores ditos. Não era o timming).

Dois dias depois de completo silêncio, ele me mandou uma mensagem dizendo que esperava que eu estivesse bem. Aproveitei a deixa pra puxar assunto, e não me respondeu mais. Tentei ligar pra ele, mas estava desligado. Naquele momento conversar era a única forma de esclarecer tudo. Eu já tinha desencanado até de encontrar, pois as grosserias tinham passado dos limites. mas foi só puxar assunto e o coração acelerou. Ele era o um. Eu tinha que espremer até o fim.

Até o fim, que se deu na manhã seguinte.

Logo que acordei, encontrei sua mensagem dizendo que era bom não conversarmos via mensagem, por que eu viajava em minhas teorias e devaneios. Não tenho sangue de barata, e respondi à altura. Que bela maturidade, travar uma batalha de textos por um app de bate papo, onde palavras leves saem ásperas e o que quer que seja dito sai na entonação da interpretação alheia. Não poupei nada, disse tudo que estava engasgado e que queria dizer no sábado, quando o encontrasse pessoalmente. Disse, por fim, numa confissão, que não estava a fim de nada pesado, e que tinha deixado isso claro, apesar de eu não ter maturidade pra entender. E eu revidei, claro, dizendo que eu realmente tinha muito a aprender sobre o mundo gay, onde palavras de amor não significavam nada.
Então veio a abordagem clássica usada por quase todos:

"Queria ser seu amigo...."

"Desculpa, mas pra ser meu amigo, é preciso ter certos pré-requisitos. Por isso tenho tão poucos."

Respondi, e desejei-lhe uma boa viagem e que encontrasse a leveza que tanto procurava. Foi de coração, acredito eu. Me deletou do facebook em seguida, respeitando meu desejo de não manter a amizade (que nunca existiu), ficando com consciência tranquila, já que eu quem não queria. Tudo na vida de Kevin era feito por obrigação, nunca por sua própria vontade. Ao menos eu devo ter lhe proporcionado o gostinho de fazer algo por si e por suas próprias decisões. No final, admitiu que não me queria mais, ao invés de culpar a viagem. Foi homem, afinal. Posso dizer com convicção que não me arrependo de nada, apesar de ter querido um final diferente, menos amargo. O sabor da decepção continha amargo. Ainda assim, valeu cada momento.
sábado, 18 de janeiro de 2014

Passado agridoce


Eu deveria ter vergonha de entrar aqui depois de passado mais de um ano sem postagem. Devia mesmo. Mas não tenho. Tenho um caso de amor e ódio com esse blog, e acredito que um dia voltarei a me dedicar a ele como antes, ou ao menos lhe darei um final decente. 

No presente momento, acho que não sou capaz nem de um, nem de outro. Apenas entro aqui com esse gosto amargo do que poderia estar escrevendo. Nesses anos que passaram, postando ou não postando, tantas coisas aconteceram. Há tanto que eu queria dizer e postar, mas não consegui. E não adianta tentar retomar o passado. 

A ultima tentativa foi frustrante. Acho também que o presente é sempre mais emergente. O final de 2013 teve um sabor especial. Teve um gostinho de esperança de que eu finalmente encontraria a felicidade em um amor. Vivi histórias que, se fosse um leitor do meu blog, duvidaria que de fato aconteceram. Mas aconteceram, de uma forma tão intensa, que olhando para trás, sinto uma mistura de felicidade e amargura. Preciso compartilhar isso aqui pra não explodir. Ano de 2013 foi um ano ruim. Não aqueles anos que dizemos que poderia ser melhor, mas foi ruim MESMO. Daqueles que você não quer mais ouvir falar quando termina e sente que não progrediu um só passo pra frente. Só queria que acabasse o mais breve possível. Aconteceu que, algumas semanas antes do temeroso fim (como já disse aqui, fins de ano me deixam mais pra baixo do que o normal) eu estava em mais um fim de semana entediante, caçando naqueles sites de putaria, quando enviei uma mensagem a mais um rapaz que faria-me as perguntas de sempre e terminaria em dois cenários possíveis: sexo fácil ou enrolação da web. Porém, quando o rapaz respondeu, percebi que ele era familiar. Mas estava diferente. Quando me enviou seu facebook, concluí que as suspeitas estavam certas. O rapaz era esse que vocês conheceram nesse post:

 http://nossolugaraosol.blogspot.com.br/2010/03/obis-rumos-que-vida-toma.html?zx=4cd16ef61543593b

 Sim, Kevin estava de volta. Pra não me complicar, fingi que não o conhecia e passamos boa parte daquela noite trocando mensagens e conversando via Watsapp (é, agora tenho mais essa ferramenta malévola graças a um Android que adquiri). Conversamos com uma afinidade assustadora e ele disse que sentia me conhecer de algum lugar. Eu, por outro lado, jamais imaginei que o reencontraria. Marcamos de nos ver no dia seguinte, que seria domingo, na Paulista, onde poderiamos ver os enfeites de natal. 

 Nos encontramos e a recepção foi ótima. Fomos até um barzinho do frei Caneca, onde nos sentamos e começamos a tomar uma bebida. Ele se lembrou do encontro na "T" de anos atrás, tendo 99% de certeza que me conhecia. Eu tinha 100% de certeza. Depois de alguns minutos, finalmente nos beijamos e foi como beijar aquele gatoto que conheci em 2007, sem tirar nem por. Era tudo um sonho, a primeira OBI que eu tinha em meus braços. Me chamou para ir a sua casa e resisti um pouco. Não queria que fosse apenas um sexo rápido e terminasse. Mas acabei indo. E claro, transamos. Foi uma ótima noite, e continuamos conversando no decorrer da semana. Porém, ele me revelou que faria uma viagem no começo do ano, e ficaria alguns meses fora do país, sem previsão de retorno. Era um sonho que ele tinha desde dez anos atrás, e não me opus. Apenas disse pra curtirmos o tempo que tinhamos sem pensar no futuro. E foi o que fizemos, ou pelo menos o que me esforcei pra fazer. Fui almoçar em seu apartamento, dormimos juntos e passamos ótimos dias. 

Mas fui notando que ele era bem triste por dentro. Havia algo naquele rapaz que o perturbava muito, um peso maior do que podia suportar. 

Um dia antes do ano novo, viajamos pra casa da minha prima na praia e passamos um dia fantástico juntos. Foi algo simples, ficamos andando na praia, com os pés na areia, mas foi algo tão intenso, eu olhava pro mar no horizonte e pensava: Finalmente encontrei aquele que procurei a vida toda. Não importa essa viagem, eu o esperarei, e viveremos essa história. Nem Hayashi nem nenhuma outra amizade poderia me impedir agora. Era eu e aquele rapaz contra o mundo e quem mais quisesse nos impedir. Não o deixaria ir novamente, escapando pelos meus dedos como da outra vez. Fomos até um morro bem alto na praia, de onde podia-se ver toda a paisagem e a muralha no horizonte no entardecer. Senti que tudo era possível. Resolvemos voltar na mesma noite, passeando de carro pela praia de São Vicente, com direito a parada em um quiosque gay e depois pelas praias de Santos. Dormi na casa dele e fui embora de manhã. 

Não passamos o fim de ano juntos por que ele teve que levar a mãe para a praia com a irmã dele. mas posso dizer que essa foi a melhor época de virada da minha vida. No fim de semana seguinte, passeamos pelo Ibirapuera e fui á casa dele. de noite, me levou de volta até minha cidade com seu carro.

E foi ai que as coisas começaram a desandar. 

Essa foi a ultima vez que eu o vi. Percebi seu afastamento pelas mensagens, que pareciam mais de amigos do que de amantes. Era como se ele quisesse que eu percebesse que era hora de deixar ir, era hora de eu aceitar que ele viajaria. Chegou a me dizer que era bom que eu me preparasse para sermos somente amigos, pois a viagem estava mais próxima, e que tínhamos apenas um lance e nada mais. O sonho desmoronava, e por mais que eu corresse atrás, sentia-o partir. Brigamos quando eu disse que estávamos nos tornando amigos ao invés de algo mais, e ele se afastou ainda mais. 

Engoli todo meu orgulho e liguei pra conversarmos, mas só vieram respostas secas ao que eu dizia. Seria uma forma de me afastar por estar de partida, ou teria sido mais uma ilusão de minha parte? um passado desenterrado que trouxe consigo esperanças demais e me encheu de falsas expectativas? Afinal, se todos os que ficam comigo acabam partindo com o tempo, por que com ele seria diferente? 

O passado é definitivamente superestimado e é um vespeiro quando colocamos a mão. Trás de volta o que foi adormecido, o que foi esquecido, e o que deveria ficar lá, silencioso. Mas não me arrependo. valeu cada momento, e cada sentelha de esperança de que podia dar certo. Talvez não tenha sido dessa vez, ou talvez tenha sido um timming ruim pela segunda vez. Agora só o tempo dirá.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O fim de uma saga



E aconteceu que, como todos sabem, eu e o Tyler, vulgo "Marido", estávamos trabalhando no mesmo local, por coincidência ou ironia do destino. Nesse ínterim, fiz amizade com uma bela moça, Sunshine, que sentou-se ao meu lado (ela era da equipe do segundo andar, mas veio fazer um trampo no local, e nos tornamos amigos com facilidade). Ela também tornou-se amiga do Tyler, e em uma festinha de confraternização de aniversariantes do mês, eu o encontrei. Ele apertou minha mão, olhando nos meus olhos, e depois saiu. Fiquei observando-o de longe, de amizade junto a outros que eu desconfiava serem gays do setor de cima. Como eu podia ser tão deslocado naquele lugar? Todos pareciam ter um lugar. Até a Sunshine tinha sua equipe.


Um dia fui lanchar com a Sunshine e o Tyler surgiu. Conversamos um pouco. Falaram sobre o show da Katy Perry e eu fiquei na minha. Como a Sunshine podia ser tão cega de não ver que ele era gay? E como ele podia ser tão hipócrita e ficar tão na defensiva? Um ar de tensão ficou pairando entre nós três. A Sunshine me contou que o Tyler tinha lhe dito que se ela não namorasse, ele a pediria. Eu devia ter dito: “É, ele diz isso pra todos...”
Algumas vezes o yler foi no meu local de trabalho e eu (tonto) ficava esperando ao menos um cumprimento. Nem isso acontecia.
Então, os meses se passaram, e fiquei sabendo que o contrato do Tyler iria vencer, tal como o da Sunshine, ambos temporários. Fiquei triste principalmente por ela. Minha única companheira. Ela conseguiu destacar-se nos últimos dias e continuar efetiva na empresa, mas Tyler não teve a mesma sorte.
Alguns dias antes do fim para o Tyler, eu voltava do banheiro e ele surgiu no corredor.
“Ei, estou indo almoçar, quer vir?”
Perguntou, e eu me lembrei de todas as chances que ele teve de me fazer aquele convite e do quanto insisti para que acontecesse.
“Não, vou mais tarde.”
Ali, me libertei... 
No dia do Tyler partir, ele foi ao meu setor. Despediu-se de sua amiga no local, e nem olhei para ele. Ele partiu sem nem olhar para mim. Assim, terminou aquele sonho de uma pessoa inocente. Eu sempre acreditei em suas palavras enquanto era online e irreal. Mas então, quando tornou-se real, vi a verdade de uma pessoa muito mal resolvida emocionalmente. E me vi nele. Mas ao contrário dele, ao menos não minto mais pra mim.
O último resquício de um romântico esperançoso morreu com aquele adeus silencioso. Chegou a hora de nascer um Rud prático, desprovido de sentimentalismo. Assim é o mundo gay. Frio, carnal e mentiroso, e preciso sobreviver nele...

sábado, 2 de outubro de 2010

Revide: Enfim o rompimento que não aconteceu



Bom, apesar de ter terminado com o Tiago, as coisas começaram a soar estranhas quando percebi que ele continuava a me ligar todos os dias e falar de todos os assuntos que tratávamos enquanto namorávamos. Uma situação bizarra, considerando que aguentamos ladaínhas quando temos a pessoa ao nosso lado para vivenciar os lados bons (beijos, sexo e ademais). Sem esses fatores, não tinha por que manter um relacionamento a distância.

Eu e o Ed, cheios de saudade da famosa "T", combinamos de ir lá no fim de semana. O Tiago então me telefonou e disse que iria lá também, o que me deixou bem incomodado. Eu queria cair na pista e beijar quem tivesse vontade, não encontrar o ex e ficar em um canto conversando. Então eu falei:

"Tiago... não me leva a mal, mas você poderia não ir na "T" nesse fim de semana?"

Claro que ele achou estranho:

"Por que?"

"Eu não estou pronto pra ver você ficando com ninguém, ainda que não tenhamos nada. A idéia de ver você com alguém por enquanto me incomoda. E não podemos mais nos privar de ficar com outros, já que estamos solteiros. Mas não queria que você fosse."

Por incrível que pareça ele pareceu entender e disse que iria tentar ir a outra balada. Eu realmente travaria se o visse lá na "T".

Chegando no domingo, fui cedinho à balada e quando pisei no local, visualisei um cara lindo com uma calça do exército, corrente no pescoço, camiseta preta, cabelo arrepiado, porte bem maduro (do jeito que eu gosto) e acabei sendo vítima da OBI da noite (aquela pessoa que não te deixa pensar em mais ninguém durante toda a noite). O Ed chegou e ficamos lá sentados conversando (fazia tempo que não saíamos), enquanto eu encarava o homem do exército.

Mais pro meio da noite, eu estava lá de boa do lado de fora da pista e avistei um rapaz que logo me reconheceu e veio me cumprimentar: Era o michel, melhor amigo do Tiago (só nos conhecíamos por Orkut). Ele então me deu a (chata) notícia de que o Tiago estava na balada. Não acreditei e quando entrei na pista, avistei o Tiago. Dei meia volta e desci as escadas. Minha noite acabou.

Lá embaixo, o reencontrei (parando teatricalmente diante dele enquanto a multidão dançava ao nosso redor) e fui conversar com ele. Foi nosso primeiro papo com climão. Horrível. Lá em cima, ele reapareceu e tentou me agarrar, mas eu o empurrei.

"Vem, eu sei que você tá empolgado."

"Toca aqui pra ver se eu tô empolgado!!"

Antes só de vê-lo, eu já ficava todo aceso. Ele tocou e não havia empolgação alguma, ficando sem graça. Um tempinho depois, encontrei os amigos do Tiago e ficamos de papo. Ele sentou no colo de um outro amigo (o primeiro rapaz que ele ficou na vida) e eu fiquei de boa, saindo logo depois, me despedindo deles.

Não encontrei mais o cara do exército nem tive ânimo de investir em ninguém ali. Foi um fim de noite bem desagradável. No dia seguinte, o Tiago me ligou.

"Nossa, foi mesmo muito constrangedor nós dois lá... Espero que um dia a gente se acostume. Eu sei que tinha um cara lá a fim de mim mas nem tive coragem de tentar nada."

Só fiquei escutando. Comecei a perceber que quase tud que ele fala é como se fosse um teste pra ver o quanto chega meu ciúmes. Se ele soubesse o quão desencanado estou.

Essa situação não estava mais me agradando. Tudo que eu precisava nesse momento era de espaço, não posso ficar todo dia falando com meu ex. Não consigo ser amigo de ex. Cada vez que ele me ligava, me irritava mais. Foi então que aconteceu.

"O que a Hayashi falou sobre nosso rompimento?"

Ele perguntou.

"Não lembro, mas uns amigos meus para os quais contei as cachorradas que você me falou só falaram mal de você."

"Eu imagino."

"Um deles até disse que você não foi homem suficiente..." (quem disse isso foi um dos meus leitores no msn, rsrs)

"Vem você e seu amigo e ensino aos dois o que é ser homem."

Não sei o que deu em mim, uma fúria incontrolável guiou minhas palavras naquele instante e eu pronunciei a seguinte sentença:

"HOMEM NÃO É SÓ ISSO, ENVOLVE MUITO MAIS. PRINCIPALMENTE CARÁTER. MAS ISSO É UMA COISA QUE VOCÊ AINDA NÃO TEM, É MUITO NOVO..."

Ele fez o que eu deveria ter feito quando ele me falou aquelas barbaridades. Desligou na minha cara. Claro que eu fiquei mal, mas não retornei a ligação. Contei essa história pro Primo, ainda chateado, e ele me aconselhou a não procurar mais, por que seria melhor manter a distância.

No dia seguinte, o Segurança me deu uma bronca, falando que o que eu fiz foi errado e que eu devia pedir desculpas. Decidi fazer o que meu coração mandava, e ele, que sempre se arrepende quando fala coisas duras, me mandou ligar.

Liguei, e não fui atendido.

De noite, liguei de novo e nada.

Então, mais a noite, meu telefone tocou. Era ele. Eu já tinha tudo em mente: Ia pedir desculpas mas ia dizer que precisava de mais espaço, que precisamos nos distanciar enquanto o rompimento é recente.

Atendi:

"Oi... Por que você desligou na minha cara ontem?"

"Ah, chegou gente aqui no serviço..."

"Hmmm, mentira. Você ficou chateado com o que eu disse."

"Não fiquei."

"Ficou sim que eu sei."

"Não, de boa."

(Nessa hora deveriam sair as desculpas da minha boca, mas quem disse que a boca obedece...)

Após silêncio constrangedor, ele perguntou:

"Só me ligou pra isso?"

(Aqui eu deveria ter dito: Claro que não, você sabe que prezo nossa amizade.... Porém acho que ambos precisamos de um tempo...)

"Só!"

Eu respondi.

"Então vou voltar ao trabalho. Tchau."

"... Tchau..."

E assim... aconteceu o rompimento que não tinha acontecido...
sábado, 28 de agosto de 2010

A psicóloga, o rapaz sem nome e a gargalhada fatal...



Qual o peso da palavra "AMOR"? E da expressão "Eu te amo"? Quando devemos dizer isso? Quando temos certeza ou quando sentimos ser o momento ideal? E a banalização da expressão? É correto chamar alguém de amor o tempo todo? E quando for real? Qual impacto terá?

Outro dia eu estava caminhando pra facul e recebi um SMS de Tiago:

"I love you"

Como resposta, enviei:

"I like you so much"

Ai ele me devolveu:

"Eu escrevi 'eu te amo', não 'gosto de você'."

Ai eu respondi:

"Eu sei. Mas não vou te devolver por obrigação. Quando eu disser 'eu te amo', será pra valer, por que eu senti que devo."

Pra mim a palavra "AMOR" é mais forte que tudo. Posso dizer que nunca amei ninguém. Só aqueles que é natural amar (família, animais de estimação). Arrisco dizer que uma OBI é um amor não correspondido. Pra mim OBI é uma pessoa inalcançável, onde só o desejo de tê-la faz com que a deseje mais, e passa a viver em um ciclo sem fim.

Perguntei ao Tiago o quanto ele me amava em uma escala de zero a dez.

"Sete ponto cinco"

Foi a resposta que eu ouvi. O amor está na média. Quando me devolveu a pergunta, eu disse:

"Nunca amei alguém. Não posso dizer que te amo, pois não tenho com o que comparar, só sei que gosto muito de você."

O mais estranho em não saber o que é o amor é que passamos a vida toda vendo filmes, contos, livros, romances e épicos sobre o amor, descrições trágicas dessa máquina que move o mundo, que não deixa dormir, que nos faz sonhar. Nunca ter sentido o que todos sentem por natureza é mais um ponto que me faz ir sempre contra a maré da humanidade.

Por anos eu pensei que o amor não existiu em minha vida por causa de meus bloqueios gerados por minha insegurança. Tal insegurança me levou a tomar uma drástica atitude: Procurar um profissional.

Fui ao médico da minha cidade, mais precisamente o clínico geral e lá, pedi uma guia para o psicólogo.

"Por que você quer passar no psicólogo?"

"Como assim?"

"Pra você passar, preciso de um motivo pra colocar na sua guia." (disse o Clínico de forma muito estúpida [Por que não vai trabalhar no que gosta?])

"Hmmm... Stress..."

Na época eu tinha saído do trabalho, stress foi o motivo que me veio em mente mas eu sabia que não era isso, óbvio. Em casa, ninguém podia saber que eu ia passar em um psicólogo, escondi de todos. Então, em um sábado de manhã, o telefone tocou enquanto eu dormia. Alguém atendeu e após um tempinho, a porta do quarto abriu. Minha mãe.

"Rud, ligaram do médico. Disseram que seu psicólogo está marcado pra tal dia."

Óbvio que eu não soube onde enfiar minha cara. Só pra começar as consultas, já tinha acumulado meia dúzia de traumas novos. Minhas sessões não foram muito produtivas. A psicóloga era uma mulher legal... até demais. Eu procurava uma psicóloga que me desse tapas na cara, que me dissesse verdades que eu não podia ver, que eu não queria ver. Eu sentava, falava várias inseguranças que eu tinha e o que eu ouvia era:

"Hmmm... É complicado..."

Com o dinheiro do seguro, entrei na academia na época. Um lugar chato, onde eu me sentia por várias vezes deslocado, até que uma vez eu O avistei.

Cabelos enrolados, braços à mostra na regata, shorts revelando suas pernas definidas, um corpo PERFEITO, sem tirar nem por... simplesmente lindo. Eu apenas o admirei. Até que um dia no vestiário ele olhou pra mim e deu um sorrisinho. UM SORRISINHO...

Em um outro dia, eu estava sentado em um aparelho e ele se aproximou:

"Podemos revesar?"

"Claro!!"

Queria ter feito mil séries ali só pra revesar com ele.

Alguns dias depois, eu o reencontrei. Ele estava entrando e eu saindo e ele disse:

"Oi, tudo bem? Já vai?"

"É, vim mais cedo hoje."

Ele deu seu sorrisinho e parti contente. Estava ali meu motivo pra ir na academia sempre. E eu ia com gosto. Na psicóloga, contei sobre ele.

"Que bom, Rud. É bom saber que você está libertando-se de seus medos. Qual o nome dele?"

"Hmmm... Não sei..."

"Haaaaah, Rud, não acredito que você não sabe. Sua missão dessa semana vai ser descobrir esse nome."

Voltei à academia obstinado a descobrir aquele nome. Estávamos sempre juntos quando nos encontrávamos lá, fazendo os exercícios e falando sobre academia, eu sem corpo nenhum e ele com o corpasso desejando mais (detalhe que eu era dois anos mais velho que ele). Um dia ele me pediu ajuda em um exercício. Ele colocava seus braços no banco e as pernas no banco da frente, agaichando. Ele precisava de peso e pediu que eu pressionasse seus ombros pra baixo.............



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Eu poderia morrer naquele momento. Pensem na cena: Eu empurrando os ombros daquele Deus grego, em um movimento quase sexual pra cima e pra baixo... ele fazendo força pra subir e eu força pra descê-lo... Aiai, um daqueles momentos em que vale a pena estar vivo.

Eu não descobri seu nome, infelizmente. Ele desapareceu por quase um mês e nesse tempo eu abandonei minha psicóloga. Motivo? A distância pra chegar lá e um ato que ela cometeu que eu chamo de pecado. Lembram do caso Tom? Do namoro de uma semana? Quando eu contei esse caso a ela... sua ação foi totalmente ANTI-Profissional. Ela gargalhou...

"Namorar em uma semana? Ah, Rud, pelo amor de Deus né?"

Sem palavras. Isso por que eu procurava ajuda.

O rapaz voltou à academia depois de um tempo longe e me contou que havia se acidentado no local. Não fiquei mais muito tempo por lá devido à grana e a não gostar mesmo de academia. Me irrita repetição de coisas. Mas nunca esqueci aquela OBI de verão, só a dúvida se ele era gay ou não me deixa pensativo. Se fosse nos tempos atuais (vide Segurança) eu não mediria esforços pra descobrir.

Por que eu contei tudo isso? Bom, outro dia eu estava conversando com o Fulano e disse:

""Se uma OBI minha parasse na minha frente e dissesse: 'Vamos?' Eu largava tudo que estou tendo."

Até hoje tive 3 OBIS: Adriano, na "T", Alvaro, o motoqueiro e o rapaz sem nome... Esses três tem um poder sobre minha vida que não posso explicar. E esses dias estava voltando do FILE (evento de tecnologia na Paulista) e, caminhando no centro de minha cidade, eu o avistei.

O rapaz sem nome.

A partir dai meu corpo não me obedeceu mais. Comecei a seguí-lo de perto, caminhando em seu encalço. Percebi que ele estava com um amigo.

"Será que é amigo? Ou será algo mais? Será que é parceiro novo da academia? Será que ficou em meu lugar?"

Então eu parei de caminhar. Parei e os observei partir, atravessando a rua. E segui meu caminho. Será a vida me testando? Será que reencontrarei todas as minhas OBIs pra descobrir se a palavra amor poderá ser enfim usada? Ou foi só coincidência? Não acredito em coincidência...

Logo após encontrá-lo, contei ao Tiago sobre minhas três OBIs. Ele ficou enciumado, mas eu deixei bem claro:

"Assim como sei que sua vida não começou comigo, você tem que aceitar que a minha não começou com você."

Cogitamos a possibilidade de, se não der certo,além de sermos amigos, vivermos em uma espécie de relação aberta. Tipo, quando ambos estiverem sozinhos e quiserem resolver certas necessidades, irem se encontrar e se resolver sem mais compromissos... Relação moderna. Gostei da idéia (podem me crucificar a seguir).

Acho que o mal de eu ser roteirista é que autmaticamente eu espero o fim das coisas. Tenho necessidade em ver os créditos subirem. E o pior de tudo isso é que sou a pessoa mais mal resolvida que conheço. Seja em relacionamentos, seja em consultas com psicólogos, em academias e até com sonhos de uma OBI de verão. Nada nunca termina...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dicas ao Sol: Como sobreviver a uma OBI (Relatos de um sobrevivente)



Bom, ultimamente tenho presenciado muitas pessoas com problemas em relação às famosas OBIs, aquelas pessoas que surgem em nossas vidas e que nos tornam pessoas mais felizes, mais motivadas... e de uma hora para a outra nos torna obcecados, doentes e dependentes delas. A coisa piora quando essa pessoa, que só de abrir um sorriso nos derrete e só de falar ilumina nossas vidas vazias não pode ficar conosco, justificando através de vários subterfúgios como "sou hétero", "creio em Deus", "somos amigos demais pra estragar tudo". Eu já passei por isso e você leitor já deve ter passado. É triste. MASSS eu sou um sbrevivente. Isso mesmo, eu sbrevivi e uma OBI em minha vida. E vou contar como.


Minha OBI era uma pessoa difícil, mas tinha dentro dele um lado bom. Ele era o famoso pegador, o bonzão, típico mano cheio de gírias e trejeitos, o "vida loka". Mas por detrás dessa máscara, eu via sua necessidade de ser notado pelos caras que moravam perto da casa dele, um rapaz que pegava tantas garotas mas que não se satisfazia com nenhuma, em busca de um rumo na vida, mas preso no destino da maioria daqueles peões que trabalhavam comigo na empresa onde o conheci. Enfim, um derrotado em pele de vitoriso descolado. Por ver além de sua carapaça, eu tive esperanças. E cada sorriso, cada vez que ele me chamava pra acompanhá-lo, cada bincadeira que fazíamos, cada vez que ele falava um de meus palavrões pessoais (eu invento palavrões pra não falar os verdadeiros, hehe) eu me derretia. Eu simplesmente FLUTUAVA perto dele...

Só não saímos da empresa no mesmo dia por que ele tinha estabilidade devido a um acidente que sofreu (com a moto). Ainda assim, toda vez que ele entrava na net, eu ia falar com ele no MSN (nem sempre sendo bem tratado). Quando deletou seu orkut, eu fiz de tudo pra descobrir se ele tinha outro. Salvei todas as suas fotos no computador. Ficava esperando ele ficar online, e quando ficava, eu ficava que nem um urubu na carniça.

Além de ter quase me oferecido pra fumar maconha com ele, cheguei no fundo do poço quando ele me ligou dizendo que tinha roubado números de documentos da empresa em que trabalhamos e queria que eu falsificasse tais documentos trocando fotos e números de RGs para utilizar no ROUBO de motos....... e eu quase aceitei!!! Liguei pra ele para dizer que aceitava mas ele tinha conseguido de outra forma. Chegar ao ponto de quase cometer um crime pela pessoa era o fim. Então comecei a reavaliar minha condição e aceitei que estava doente.

O processo de eliminação da OBI é lento, já aviso. Comigo foi lento, e doeu bastante. Mas sobrevivi.

1. O primeiro passo é o desapego, e provavelmente é o que mais machuca. A ÚNICA forma de se desapegar é mantendo distância. Convivência não deixa a OBI morrer. Então afaste-se.

2. Vá cortando outros tipos de contato como Orkut e MSN. Diminua a frequência de conversas, demore para responder as mensagens até que a pessoa perceba que você não é mais o mesmo. Assim, perceberá que deve te tratar de forma diferente, pois aquele antigo dependente livrou-se dele.

3. Deletar de sua vida é a parte mais triste do processo. Livrar-se de vez do telefone, MSN e Orkut, até que mais nada reste, somente a lembrança. Suas fotos também devem ser deletadas assim que possível. Tão difícil quanto deletar é deixar a pessoa lá na lista de contatos e vê-la entrar e sair e parar pra pensar: "Puxa... eu superei." É perigoso, pois se ele vier a falar algo, pode trazer vários sentimentos à tona e isso pode ruir todo o trabalho. Mas vale a pena superar. Hoje essa é minha situação. Ele fica on, e eu ignoro. Ainda não consegui deletar as fotos, mas hoje às vejo como as de amigos, não mais como antes (que ficava meia hora olhando em cada foto, admirando cada pedaço do rosto e desejando estar junto e.... Deixa pra lá).

Não sei se essas dicas ajudam, só sei que é um processo BEEEM lento e é preciso se atentar às recaídas, resistir a cada vontade que surgir de sequer falar com a OBI, pois qualquer palavra trocada pode ser um retrocesso. Vençam suas OBIS, pois sem elas a vida pode brilhar menos, os pássaros podem não cantar, o despertar do relógio pode ser penoso e o caminhar pode ser cansativo. Enfim, dias ensolarados podem ser envoltos de sombras e escuridão quando elas não estão presentes... MAS... NÓS SOBREVIVEMOS!!!
quinta-feira, 25 de março de 2010

OBIs: A Suprema Obsessão: Parte III: Quando milagres acontecem...



Alvaro não morreu.
Teve alguns ferimentos leves, mas entrou para a caixa. Ficaria de três a cinco meses fora e teria que fazer fisioterapia. Eu estava sozinho. Em um setor isolado nos fundos da empresa, trabalhando com meu pior inimigo.

Meu coordenador agora era um japonês, gente fina até. Ele ficou sabendo que eu tive problemas com o Edgar e até conversou comigo sobre o assunto, pedindo que eu fosse nele se as coisas ficassem ruins de novo que ele resolveria.

Eu e Edgar trabalhamos alguns dias com a colaboração de alguns descarregadores de caminhão, mas na semana seguinte, novos auxiliares contratados especialmente para trabalhar no setor iriam chegar. Sempre na hora de ir embora, Edgar dizia que ficaria mais um pouco,que iria depois.

Na semana seguinte, conhecemos Osvaldo. Edgar ficou ensinando-lhe o trabalho inicialmente e logo percebi que o rapaz gostava de uma boa conversa. Edgar conseguia ser simpático com ele ao extremo e deixei os dois conversando. Osvaldo era bonitinho. Na hora da janta, primeiro foi Edgar e depois eu fui jantar com Osvaldo. Nesse momento, os outros auxiliares vieram perguntar o que Osvaldo estava achando do "chefe" Edgar. E ficou sabendo da maioria dos podres dele sem que eu precisasse abrir minha boca.

O que rolou nas semanas seguintes foi uma estranha e silenciosa batalha. Edgar demorava mais do que uma hora na janta e conversava o dia todo, enrolando para fazer seu serviço. Em revide, eu demorava na janta também, ficava com o Osvaldo de boa, e este aos poucos ia percebendo as folgas de Edgar, sempre reclamando pra mim. Um dia voltamos da janta e haviam umas latinhas que fizerambarulho quando abrimos a porta. Edgar saiu do meio dos Pallets logo em seguida. Provavelmente enquanto jantávamos, ele dormia ao invés de trabalhar. Osvaldo pedia que eu falasse com o nosso coordenador sobre tais problemas mas eu não podia. Pelo menos não por enquanto. Na hora de ir embora, Edgar sempre dizia que ficaria um pouco mais. Nós partíamos.
O segundo auxiliar chegou. Seu nome também era Edgar, mas o chamarei de Silva para não confundir. No primeiro dia que eu vi o Silva, falei:

"Cara esquisito."

Não falei muito com ele. Ele e Edgar ficaram trocando idéia sobre a época em que serviram o exército. as Silva parecia muito lerdão pra ter servido. Até sua forma de falar era mais lenta e mole, engraçado. Um dia ele olhou para mim, que quase sempre trabalhava quieto, evitando encrencas, e perguntou se eu era da congregação. Confirmei. Começamos então a conversar, ele também era. Ele contou que às vezes tinha um sonho em que se olhava no espelho e via um demônio. Esquisitão. Gostei dele.
Passamos então a ir jantar, nós três, e deixar o Edgar trabalhando sozinho. Ele se isolou por si mesmo.

Acho que foram dois meses naquilo. Em meio ao processo, ganhei outra atividade do meu coordenador e Osvaldo e Silva revesavam comigo, era sempre bom tê-los por perto. Naquele tempo, fiquei conversando com o Alvaro pela internet, o que era bem legal, ele ficava se vangloriando que estava de boa enquanto eu trabalhava.
Foi então que chegou aquele sábado. Edgar não veio trabalhar no horário. Tive que ir buscar um Pallet com Osvaldo lá na frente enquanto o Silva ficou trabalhando no setor sozinho. Conversamos bastante com o Jonas lá na frente, que falou muito sobre o Edgar e sua irresponsabilidade. Ele contou acreditar que algo bom acabaria acontecendo. Eu não tinha esperanças. Quando voltamos ao setor, Edgar havia chegado. Eu e Osvaldo começamos a discutir sobre o que faríamos e ele veio até nós, olhando bravo e dizendo:

"O que os dois estão cochichando ai?"

Um pouco antes do almoço, Edgar foi para minha mesa e começou a trabalhar perto de mim, me provocando. Não sei como começou, mas se desenrolou mais ou menos assim:

"Você devia ter tido vergonha na cara e ter ficado lá na separação, não devia ter voltado!! Sei muito bem que você fica de conversinha com o Jonas, que fica fofocando que nem uma mocinha!! Você não presta pra trabalhar aqui!! Em lugar nenhum!! É Muleque e tem muito o que aprender ainda!! Se fosse lá fora, Rod, eu já tinha lhe arrebentado a cara!!"

Óbvio que eu não fiquei calado. Ele batia repetidamente na mesa enquanto falava e eu o repelia na mesma intensidade, dizendo que ele não prestava. Provavelmente ele estava drogado. Osvaldo e Silva tentaram parar a briga que se estendeu aos gritos.

Deixei minhas coisas lá e fui amoçar sozinho, sem a companhia deles, que vieram logo atrás de mim. Confesso que estava mal. Não poderia levar aquilo a ninguém. Edgar era capaz de me atacar fora da empresa, como o Alvaro me disse uma vez: Ele era barra pesada. Silva e Osvaldo sentaram comigo e perguntaram se eu estava bem. Disse que não, e que seríamos vítimas dele enquanto estivéssemos ali. Vi Silva conversando com o Ed depois da comida, mas fiquei na minha. Desanimei completamente. Os dois começaram a insentivar-me a contar a verdade ao coordenador. Mas eu não podia.
Ed me chamou antes de eu voltar do almoço:

"Somos amigos?"

"Somos, ué..."

"Então por que você não me conta as coisas?"

"O Silva andou falando, né?"

"É, tive que saber por outro, ele disse que teve a maior briga lá no fundo!!"
"Teve. Não sei mais o que fazer."

"Você precisa dar um ultimato."

Voltando do almoço, Silva e Edgar subiram para imprimir etiquetas e eu fiquei com o Osvaldo. Eles voltaram e todos trabalharam em silêncio. Pensando hoje, como fui um idiota de aguentar tudo aquilo calado, eu deveria ter encostado o Dario na parede e ter exigido sair dali. Mas tudo bem.

Na hora de ir embora, descemos os três juntos e Edgar ficou para trás. Eu sabia que Edgar estava querendo acabar comigo e que eu estava em potencial perigo. Os dois atravessaram a rua, pois peavam o ônibus do outro lado. Então, Edgar virou a esquina e caminhou na minha direção. Lembro que meu coração disparou. O tempo pareceu dilatar-se. Parecíamos estar somente nós dois naquele local. Ele caminhou e passou por mim lentamente. Não o olhei. Fiquei de cabeça erguida e ele passou por mim, não sei se me olhou ou não. Partiu.

Segunda feira foi dia de inventário, onde nosso setor era o que mais participava pois tinha ligação com a contagem. Ed me chamou próximo ao horário de saída.

"Você não parece bem, está abatido."

"É, eu to meio estranho, encurralado, na verdade. Eu tenho que contar ao meu coordenador o que ele fez mas não posso. Sei que as coisas ficarão feias se eu fizer isso."

"Confie na providência divina, é bom as vezes. Acho que Deus não deixaria nada te acontecer."

"Só um milagre pra me salvar mesmo."

Foi então que chegou terça feira. Eu decidi contar ao meu coordenador o que havia acontecido. Logo que eu cheguei, soube que haveria uma reunião às duas horas da tarde. Passei pelo Edgar e virei a cara. Acho que jamais o encararia de novo. Cheguei no meu setor e meu coordenador me chamou. Saímos andando e conversamos.

"Você acha que o Edgar trabalha bem?"

"Não posso dizer. Você é o coordenador."

"Estamos pensando em tirá-lo do setor, você acha que daria conta?"

"Eu daria. Mas não quero que ninguém se prejudique."

Subimos no segundo andar e eu peguei as etiquetas. Mauro, o supervisor da empresa me cumprimentou e pediu que eu chamasse o Edgar para lá, pois o rádio não estava funcionando. Voltei ao meu setor e, sem olhar para o infeliz, dei o comunicado.

"Estão te chamando lá em cima."

Só disse isso. Ele largou o que estava fazendo e partiu. Dez minutos se passaram e fomos chamados para a reunião. A empresa toda, incluindo RH, cozinheiros e limpeza estava presente. Vimos movimentação de seguranças nos arredores. O diretor da empresa desceu e juntou-se a nós. Nunca vi uma reunião tão completa. Só faltava uma pessoa.

Edgar colocava latinhas vazias para acordá-lo quando chegávamos.

Ele dizia que ficaria um pouco mais todo dia enquanto íamos embora.

Ele não estava presente na reunião.

Então, o diretor se pronunciou.

"O funcionário Edgar não faz mais parte de nosso quadro de funcionários."

Jonas disse que algo bom poderia acontecer em breve. Ed disse para eu confiar no divino, pois um milagre poderia acontecer.

Não pude conter o meu sorriso e surpresa enquanto ouvia aquelas palavras serem pronunciadas...

"Edgar foi pego roubando produtos no setor novo. O forçamos a se demitir sem nenhum direito, caso contrário chamaríamos a polícia..."

Isso é o que eu chamo de providência divina!!!

Infelizmente não foi ai que a história de Edgar acabou em minha vida...
quarta-feira, 24 de março de 2010

OBIs: A Suprema Obsessão: Parte II: Quando você se vai...



Você já deve ter tido um inimigo. Aquela pessoa que não pode estar aonde você está, que não pode coexistir com você. Se você nunca teve um inimigo, com certeza ainda terá um. Esses inimigos nos fazem amadurecer, mesmo que há muito custo. Para contar do cara que mais gostei na empresa, é necessário falar do que eu mais odiei também. Seu nome era Edgar. Nos conhecemos no dia do exame médico, conversamos antes de entrar na sala para fazer os exames. Me pareceu boa pessoa, humilde até. Pura fachada. Na empresa, revelou-se o mais insuportável e mesquinho dos presentes. Cada frase que dizia era uma afronta ou uma indireta, principalmente com relação à minha sexualidade. Ele sabia de mim, sem dúvida. Havia vezes em que falava:

"Rod, não precisa ter medo,estamos no mesmo barco. Preto e viado sofrem o mesmo tipo de preconceito."

Ele era negro e parecia menosprezar a si próprio. Minha presença parecia ser para ele uma ofença. Vivia falando de mulheres, perguntava várias coisas sobre eu com elas e eu sempre inventava mentiras, tentando convencê-lo como se isso fosse mudar algo. Eu simplesmente não suportava conviver com ele. O maior motivo de eu querer sair da empresa no vencimento de seu contrato era ele.
Fui efetivado. David deixou a empresa. Edgar me viu triste naquele dia.

"Hah, ele saiu e outro entra. É bom que sobram mais vagas pra gente."

Repulsivo. Eu fazia o possível para ignorá-lo. Um dia, recebi uma tarefa do inventário de retirar alguns pallets do caminho e isso atrapalhou Edgar em um serviço que ele estava fazendo. Eu estava perto do Alvaro quando tudo aconteceu. Edgar veio até mim tirando satisfações e gritando, dizendo que eu estava atrapalhando o serviço dele. Eu sou marrudo, e na hora só me veio continuar meu serviço. Ele foi pra cima de mim e pegou o meu carrinho no qual levava o pallet. Minhas mãos seguraram junto às mãos dele. Lembro que aquele momento parecer uma eternidade. Íamos nos atracar ali mesmo. No dia, quem estava na liderança era Jonas, um rapaz de uns trinta, aspirante a líder e sonhador que sempre ficava de líder na ausência de Dário, o coordenador oficial. Ele veio nos separar, dizendo:

"Ou vocês trabalham juntos ou não sei aonde vamos parar!!"

Minha relação com Edgar não poderia ser pior. Alvaro me chamou de canto naquela noite.

"Rod... Toma cuidado com o Edgar. Ele não é como os outros!! Ele é barra pesada!"

Lembro que aquelas palavras me abalaram enquanto eu dizia não ter medo dele. Eu estava apavorado e pior: Não sabia o que fazer para que ele largasse do meu pé. Usei a tática de ignorar. Passei a não falar mais com Edgar.
Depois de ser efetivado, Dário chamou a mim e ao Alvaro e nos disse que dali em diante, cada um treinaria uma semana no que chamavam de cabine: Uma espécie de cérebro no centro do galpão, onde dois rapazes cuidavam da parte burocrática da empresa, como notas de entrada e saída, verificação de caminhões e alocação de mercadoria. Eu fui o primeiro a ser testado. Fiquei treinando com um rapaz que todos chamavam de nerd. Tinha uns óculos grandes e era anti-social, porém um gênio. Dezenove anos, Roberto parecia ser mais velho. Ele não soube me ensinar absolutamente nada. Eram tantos procedimentos, um sistema de computador intrincado. Eu simplesmente não entendia nada. Aos poucos fui desanimando e meio que desisti. Naqueles dias de começo de mês, era mais interessante ficar com o Alvaro, andando para cima e para baixo, cercando-o e rindo com nossa bela amizade. Enquanto Roberto ficava lá sozinho.

Passaram algumas semanas. Dário me ofereceu uma vaga em um novo setor da empresa. Não pude aceitar, por que o horário de lá era administrativo, das oito da manhã às seis da tarde e eu tinha a faculdade. Mas eu fiz questão de dizer ao Dario que Alvaro separava bem e que o ideal era colocar Edgar no novo setor. Não demorou muito, Edgar mudou de horário em seu novo cargo. Eu e Alvaro ficamos felizes.

Após as semanas de treinamento, começou a correr um boato na empresa que eu seria o próximo auxiliar logístico, o cara que ficava lá no centro do galpão, sentado ao computador resolvendo todos os problemas. Muitos se revoltaram e Alvaro até desistiu de competir. Mas eu não me sentia preparado naquele momento. Enrolava e acabava ficando boa parte do dia com o Alvaro. Na semana seguinte, Roberto parou próximo a mim e ao Alvaro e pronunciou a sentença:

"Alvaro... guarde suas luvas. Você foi o escolhido pra me ajudar no computador!"

O mundo desmoronou. Quer dizer que Alvaro, que entrou depois de mim, estava ganhando a oportunidade de mão beijada e eu estava ficando pra trás... e sozinho naquele galpão?! Toda aquela admiração e brilho que eu sentia pelo Alvaro findaram naquele instante.

No meio do dia, ele veio até mim.

"Cara, meu cérebro está até doendo! É muita informação ali... e o Roberto não ensina bem..."

"É... Também acho."

Depois me calei. Ele olhou para mim.

"Ei, o que foi?"

"Nada."

"Não, perai... Tá bravo por que eu to lá?"

"Não, quem disse?"

"Eu to vendo, né... escuta, foi uma surpresa pra mim também. Semana passada tava todo mundo falando que você ia estar lá... Eu já tinha até desistido. Fiquei feliz por você!! Eu espero que você fique feliz por mim..."

Havia naquele garoto um poder em suas palavras que não podia perceber. Um poder de me convencer. Ele conseguiu me convencer de que estava tudo bem. Combinamos de jantar juntos todos os dias e eu não conseguia parar de ver a hora de jantar. O resto do dia sem ele era insuportável. Quando foi efetivado na empresa, Alvaro comprou uma moto e vivia me contando das inconsequências que realizava com outros aloprados de seu bairro.

Ele pegou o jeito naquele trabalho, enquanto eu queria apenas subir no RH e pedir minhas contas, era insuportável continuar estacionado aonde eu estava. Comecei a investigar por que não tinha conseguido o cargo. Me falaram que Roberto tinha queimado meu filme. Eu sabia que ele era um manipulador. Quis avançar nele, trucidá-lo. Mas lógico que não podia. Fiquei com muito ódio dele. Fui então desabafar com Jonas, o cara que sabia que podia contar ali, pois ele sempre desabafava seus sonhos de virar lider algum dia comigo. Falei que esperava ter virado auxiliar logistico e contei que provavelmente o Roberto havia queimado meu filme.

"Não, Rod... Não foi ele. Quem questionou O Dario sobre sua preparação para o cargo fui eu..."

Mais uma virada de mesa. E das feias. O cara que eu confiava e que tinha voz ativa com meu coorenador foi o responsável por perder a disputa. Fiquei decepsionado. Arrasado.
Para piorar, No fim da tarde daquele sábado, Dario veio até mim:

"Então, Rod... A partir de segunda feira, como a demanda no novo setor está forte, serão feitos dois turnos. Vou precisar que você trabalhe com o Edgar a tarde lá."

Não. Devia ser algum tipo de experimento maligno: Manter eu e Edgar, meu pior inimigo, nos fundos esquecidos da empresa... Nos mataríamos definitivamente. Fiquei sem ação com a ordem que ele me deu. Quando voltei a mim, ele já tinha partido.
Segunda feira, fui para os fundos. Avisei ao Ed e ao Alvaro que logo voltaria, que aquilo não daria certo. Fui para o novo setor, uma espécie de resgate de produtos. Trabalhei o dia todo com o Edgar, evitando falar o máximo que pude. As horas arrastaram-se. Ao fim do dia, faltando cinco minutos para as vinte e duas, horário de sair, Edgar começou a me dizer o que fazer:

"Limpa o chão ai, essa é a nossa área, a gente tenque cuidar!"

"Você não precisa me falar o que fazer."

"Perai, pera... Você não tá aqui pra trabalhar? então você vai trabalhar!! Se não quer trabalhar, cai fora e eu falo pra colocarem outro aqui!!"

Eu era algum tipo de empregado dele? Acho que não. Enjuriado, virei pra ele com ódio.
"Eu achei que isso podia dar certo, cara, mas não vai dar!! To fora!!"

Deixei tudo lá, para ele limpar e caminhei sem olhar para trás. O setor ficava nos fundos da empresa, tinha que andar muito para chegar à área de separação. Fui direto em Jonas.

"Cadê o Dario?"

"O que foi, você quer ajuda?"

"É só com ele!!"

Dario apareceu e eu expliquei a situação.

"Não posso trabalhar com ele!! Não posso!! Me tira de lá!"

Na hora ele concordou, sem pestanejar. Dia seguinte, cheguei com um sorriso indisfarsável no rosto e comuniquei a Ed e Alvaro que meu plano tinha dado certo: Arranjei confusão e voltei para o setor antigo. Os dois ficaram orgulhosos. Durou apenas um dia aquela experiência maligna. Durante toda aquela semana, não fui para o setor dos fundos, meus companheiros ficaram lá. Fiquei sozinho no setor de separação, mesmo sem nada pra fazer. Sábado chegou e Dario veio novamente até mim:

"Eu te garanto, tive uma conversa com o Edgar! Ele mudou, Rod. Eu preciso de você nesse novo setor!!"

Naquela noite, Alvaro pegou sua moto e foi para casa como sempre fazia.

"Você tenque aproveitar as oportunidades de crescimento que a vida te dá, Rod!! Aproveite!!"

Em uma esquina, saía um caminhão de uma empresa. Caminhão baú. Não sei como aconteceu direito. Alvaro desviou de um carro e acabou se jogando contra o caminhão.

"Eu me responsabilizo daqui pra frente. Faça somente o seu trabalho. Não deixe essa chance passar..."

Alvaro bateu de cara contra o baú. Não sobrou nada de sua moto, esmagada pela roda.

Na segunda feira, aquela notícia se espalhou por toda a empresa. Eu fiquei apavorado em busca de notícias.
Caminhei ao setor novo. Lá estava Edgar. Como um cordeiro caminhando para o matadouro, avistei meu pior inimigo, sem saber o destino do Alvaro no hospital. Edgar não me olhou, nem eu olhei para ele.

As portas do novo setor se fecharam nas minhas costas...

Destroços no asfalto...

Naquela altura, nada mais poderia piorar em minha vida...
segunda-feira, 22 de março de 2010

OBIs: A Suprema Obsessão: Parte I: Quando você me pede...



Não sei se o que eu senti foi amor. Se foi paixão. Mas sei que foi obsessão. Isso tenho certeza absoluta. Tudo começou na última empresa que eu trabalhei em logística, na mesma em que eu conheci o Ed. Em uma noite, meu chefe pediu que eu fizesse um senso. Uma epécie de listagem das pessoas que trabalhavam na empresa. Não eram muitas, menos de trinta, não foi difícil fazer. Isso meio que causou uma familiarização com o pessoal. Considerando que eu era de ficar muito na minha, foi algo bom.

No dia seguinte, logo que cheguei, o vi no vestiário. Um garoto, parecia bem mulecão. Dezenove anos. Logo que eu avistei o sorriso dele, meio tímido diante de todas aquelas pessoas que não conhecia, algo mudou em mim. Peguei minha prancheta e fui trabalhar. Assim como ele, eu era auxiliar. Mas estava com o senso na mão. Então, caminhei até ele e gentilmente, peguei seus dados. Seu nome era Alvaro. Ele me olhou curioso:

"Você faz o que aqui? É de um cargo superior?"

"Não... me deram esse trampo, mas sou... auxiliar como você."

Aquilo bastou para que fizéssemos amizade. Passei o resto do dia ensinando o trabalho para ele, conversando e me derretendo para tudo que ele dizia. Foi assim que a gente ficou amigo, andando juntos e falando da vida. Eu era um bobão, na época não tinha feito muita coisa além de umas "ficadas", enquanto ele aos poucos foi revelando o quanto era bom com as garotas.

Óbvio que eu não tinha chance com ele. Eu deveria ter desencanado e seguido em frente.

Passado meu tempo de experiência, era preciso me decidir se iria ser efetivado ou não. Nunca mentiram para mim, sempre soube que trabalhava mal. Mas o que eu poderia fazer? Acordava às cinco da manhã, ia para a faculdade, saía às 11, chegava meio dia em casa, almoçava correndo, saía meio dia e meio para chegar uma e meia no serviço e trabalhar até as 22 em um emprego pesado de levantamento de caixas, algo que eu odiava. Eu simplesmente não tinha ânimo, força de vontade, e como era (e sou) bolsista, sentia que deveria sair e arranjar um estágio. Fiz uma lista de motivos para ficar e para sair da empresa. A lista para sair era mil vezes maior. No dia seguinte, cheguei na empresa decidido. Meu chefe Dário (ele era muito bonzinho,bom demais) foi falar com um por um dos auxiliares, e eu fui o último.

"Então, Rod, você não é um dos melhores auxiliares, mas eu lutei por você e eles lhe darão uma chance. Você vai ser efetivado, mas sua produção terá que melhorar."

Era impossível melhorar. Era impossível. Eu decidi. Sairia dali, mentiria para meus pais que tinha sido demitido e bola pra frente.

No dia seguinte, cheguei e antes de me trocar, fiquei esperando meu chefe. Meus colegas passavam por mim e eu ia dizendo que partiria. O david parou e falou:

"Não vai não, doido, a empresa é boa!!"

Eu estava irredutível. Francisco, chefe da sala de Expedição, que sempre brincava comigo, veio até mim e lamentou que eu partiria. Avistei o Dário e fui até ele. Com a voz trêmula, falei:

"Me desculpa, Dário, mas a vida tá muito corrida. Eu realmente não vou aguentar ficar. Tenho que encontrar estágio."

Ele fez uma cara de chateado, e eu já esperava ir embora ali mesmo. Mas então ele falou:

"Ok, então você cumpre o contrato e parte depois."

NOOOOOOOOOOOO!!!! Cumprir contrato?? Não imaginava isso. Naquele dia, então, vivi o melhor e o pior dia até então. Todos vieram até mim perguntar:

"Você vai mesmo? Não acredito!!"

"Vou."

"Você tá cometendo um erro."

"Pois é."

Eu já tinha decidido. Já tinha preparado meus pais para o pior. Nada me faria mudar de idéia. Eu tinha vários inimigos no local, pessoas repulsivas que eu detestava. Um deles era o Edgar. Brigávamos quase sempre. E foi ele quem veio dizer: "Você está cometendo um erro." Apesar de ser permeado por dúvidas, ainda assim estava irredutível.

Foi então que o Alvaro caminhou até mim. Me olhou nos olhos e proferiu aquelas palavras que mudaram minha vida pelo próximo ano:

"Não vai não, Rod... ninguém aqui presta. Você é meu único amigo..."

Eu senti o peso do mundo nas minhas costas. Senti todo o meu plano desmoronar. Dário veio até mim e, ainda sentido, perguntou:

"Você tem certeza que quer sair?"

"... Não... Não tenho certeza de mais nada..."

De noite, serviram macarrão e eu passei mal, coloquei toda a comida para fora. Meus colegas viram e chamaram o Dário. Ele me mandou ir embora. Enquanto arrumava minhas coisas, duas das pessoas que eu mais detestava no local vieram e disseram que eu tinha que ficar, que eu estava cometendo um erro.

Acabou que no dia seguinte eu cheguei para meu chefe e decidi ficar... Foi a maior correria para acertar os documentos em tempo. Ouvi muita zoeira depois contra mim, dizendo:

"O Rod nunca separou nada de caixas e ainda fez doce para ser efetivado."

Nem ligava, o importante, o MAIS importante era que ELE tinha me pedido pra ficar e eu fiquei... Foi o começo do meu pesadelo.